October 02, 2012

Matemática


Todo mundo diz que alemão é uma língua danada. As pessoas falam comigo com penina. Olham e dizem: “nó! Mas alemão... é difícil demais né não?...”. A expressão de tristeza e desânimo é engraçada, muito parecida com a que as pessoas fazem quando o amigo conta que vai reformar a casa: “nó! Reforma é duro né? Mexer com pedreiro então....”. Ah, e também tem o famoso “ai, credo!”, curtinho, repentino, mais comum entre mulheres. Acho isso tudo muito engraçado porque as pessoas falam essas coisas automaticamente e como diz Michelle, operam por palavra-chave: “alemão -> difícil, phoda, muitas consoantes”, assim como também tem o “alemão -> salsicha”, ou o “alemão -> cerveja”. Generalizações. Faço também. 

Acho curioso porque a maioria das pessoas não têm a mínima noção do que é aprender uma outra língua. Não aprender por aprender, aprender porque está na quinta série ou porque todo mundo faz. Diferentemente do inglês, raramente alguém aprende alemão porque sim, porque o coleguinha faz e eu quero fazer também. Nenhum dos meus colegas da escola de alemão está lá pra passar o tempo ou porque é legal. Mas porque precisa ir ao banco, porque bateu com a bicicleta e precisa se explicar pra polícia, porque precisa comprar bicarbonato na farmácia e o namorado viajou. Nessas situações, os acertos e erros tomam uma outra escala. Parecem astronômicos quando são pequenos e imperceptíveis quando na verdade são enormes. Nunca se comunicar teve peso de ouro. Cada caso é um caso, mas eu queria contar o meu. 

Preciso dizer que quando penso na língua alemã - no que aprendi, no que não aprendi, no que desisti de entender e no que já consegui - lembro-me primeiro, assim antes de tudo mesmo, da Tia Ana, minha professora de português do colégio a partir da 5a. série. Não tem um só dia que não me lembro dessa criatura. Foi ela quem me ensinou Análise Sintática. Bendita Tia Ana. Tia Ana, sem a sua Análise Sintática eu ainda estaria no A1-1 do alemão! Somente graças ao meu bom português dou conta do alemão.

Eu preciso dizer também que só agora entendi a importância do português. É sério. Aí vocês vão falar: “ah, mas né, o português é básico né, todo mundo tem que saber ler e escrever”. Estou falando de mais do que isso. Eu sinto que só estou aprendendo alemão direito (bom, pelo menos eu acho que estou) por causa das minhas referências do português. Eu sei o que é sujeito, predicado, objeto. Sei como essas coisas funcionam - Análise Sintática. Em alemão a pessoa precisa entender isso pra poder montar as frases. Cada coisa tem uma posição definida e os artigos definidos e indefinidos declinam de acordo com o sentido da frase. Além disso, claro, a língua funciona como o povo funciona. Ou o contrário... Se as coisas não acontecerem como está previsto, elas não vão funcionar. E se elas não funcionarem agora, não funcionarão amanhã. No Brasil é diferente. Se sempre resta uma esperança. Não funcionou hoje, mas pode funcionar amanhã. Bem, fato é que se eu errar a declinação do artigo, o sentido da frase muda. No português não. No português você pode muita coisa. Imaginem, usamos a terceira pessoa do singular (você) no sentido da segunda (tu), mas utilizando a conjugação da terceira. Em português posso botar o verbo onde eu quiser ou pelo menos onde ficar mais bonito. Em alemão ele estará sempre no segundo lugar. Há claro exceções, onde ele vai pro final, as danadas das orações subordinadas. Elas já foram um grande problema pra mim, agora não mais. Olha isso... Alemão faz você perder a referência. Depois de um tempo, passa achar o seu grande problema do passado, como as orações subordinadas, papinha de criança. Sempre aparece coisa pior e você deixa o seu último grande problema pra trás. Se acostuma com ele, aceita e a coisa acaba funcionando. 

Dificilmente existe “porque sim”. Existe sim um grande “porque sim” no início, que é definidor. Mas daí em diante são derivações. No início você acha tudo muito muito muito difícil. Não se vê falando nada, não enxerga um futuro, assim real. A pronúncia é bem difícil a ponto de você se esquecer de como se fala uma palavra em menos de um minuto depois de pronunciá-la. Ainda mais eu, uma ansiosa incurável. Quero me lembrar, quero me lembrar, quero me lembrar e esqueço. A pessoa aprende que existem 3 tipos de artigos definidos, além do plural: masculino, feminino e o neutro. Fica sabendo que não há nenhuma lógica que se assemelhe com a da sua própria língua na designação dos artigos. Esse é o primeiro momento de desespero. Por exemplo: colher em alemão é masculino, garfo é feminino e faca é neutro. Você até já ouviu falar que existe um troço chamado “casos”, que eles vem do latim e tal, mas nesse momento nem dá importância. Em primeiro lugar porque se você der, desiste. Então, prefere a ignorância que te permite seguir em frente. Em segundo lugar, porque sua cabecinha está ocupada demais em decorar o que é masculino, feminino e neutro. O grande problema da humanidade agora é esse e mais nenhum. Seu cérebro te apronta traquinagens e você erra tudo. Espalha etiquetas pela casa e descobre que a memória visual é arma fundamental. Descobre que esses artigos servem somente para o “Nominativo” e que depois tudo vai mudar. 

Você finalmente percebe que os alemães falam de boca fechada e que por isso é tão difícil entender o que eles fazem com a língua. Há muitos sons que vem da garganta ou do final da língua, um mundo a ser descoberto. Peça ao seu professor / marido / sogra / caixa de supermercado pra repetir com a boca aberta, e devagar. Mico, mas é assim que funciona. Tem horas que até me abaixo pra ver como a pessoa fala e olho direto pra boca dela. Presto muita atenção. Não sou boa de ouvido, nem no Português... esse tem sido o meu principal problema. 

No início a gente aprende os números! Te ensinam a falar as horas! Lá vem de novo outra lógica. Não são “vinte e dois”, mas “dois e vinte”. Não são “três e meia”, mas “meia quatro”. 999, além de ser “nove centos nove e noventa” se escreve tudo junto: “neunhundertneuundneunzig”. Você pode escolher dizer 6:25 assim: “cinco para meia sete”. A partir daí, você relaxa e pensa: “é, vou levando porque não tem muito jeito não”.  A melhor parte é quando você se desespera total, porque mais pra baixo você não pode ir, então sabe que daí vai subir. Você aprende a diferença entre Nominativo, Acusativo e vê que todos os artigos mudam. Isso não é difícil de entender, mas difícil de praticar. Iniciantes precisam de uns 5 minutos pra formular uma frase corretamente. Seus amigos já familiarizados com a língua e seus professores te dizem que essa é uma fase difícil, mas que de repente o seu cérebro dá um clique e a nuvem negra passa. Te asseguram isso e você confia. E passa mesmo. Depois de alguns meses é que eu entendi essa lógica. Há várias fases de crise com a língua e a tendência é encarar cada uma delas achando que é o problema da humanidade. Desse jeito você (1) engata a primeira e sobe o morro a qualquer custo e (2) mente pra si mesmo - ignora as partes da gramática que você ainda nem sonhou em aprender e se concentra no problema atual. Isso acontece toda hora. E quando você tá lá todo afiadinho num determinado assunto aparece outro pra atrapalhar seu meio-de-campo. Você sobe e desce, termina um ciclo de grandes dificuldades e depois começa outro todo de novo. 

Depois de um período inicial a gente fica mais esperto. Já não se abala com qualquer pedra no caminho. Se acostuma. Até porque se sente o máximo em ter entendido o Acusativo e também o Dativo. Não sei explicar assim rapidamente o que são casos, mas é algo próximo daquela história do Objeto Direto, que é Objeto Acusativo no alemão, e Indireto, que é o Objeto Dativo do alemão. Acusativo e Dativo também tem a ver com lugar e movimento, e obviamente com as preposições. Há preposições só pro Acusativo e outras só pro Dativo. Tudo é decorado e tabelado. Repito: alemão é fácil de enteder, mas custoso de praticar. Tenho senhas ridículas pras preposições, tipo VZ SNAMBAG. Cada letra é a inicial de uma preposição do Dativo. E FUDOGE é a senha para as preposições do Acusativo. Parece nome de cachorro, mas não é. Além disso, tudo que implica movimento é Acusativo e tudo que é fixo é Dativo. “Vou para a escola” indica um movimento e em alemão é “Ich gehe in die Schule”. Nesse caso usamos “die”, artigo feminino singular do Acusativo. Se eu quiser falar “eu estou na escola”, a coisa já muda e vira coisa fixa: “Ich bin in der Schule”. O die vira der, que significa a mesma coisa, mas só que no Dativo. Sendo que der no Nominativo é masculino e no Genitivo é plural ou feminino. 

Quando você pensa que entendeu tudo tudo e tá arrasando nos artigos e até já aprendeu outro caso, esse tal Genitivo, primo do Genitive Case do inglês, que não é difícil, vem a bomba: os adjetivos também declinam e não declinam igual aos artigos. Por exemplo:

A menina bonita vai à escola.
Das schöne Mädchen geht in die Schule. 

Uma menina bonita vai à escola.
Eine schönes Mädchen geht in die Schule. 

Dei um presente à menina bonita.
Ich habe dem schönen Mädchen eine Geschenke gegeben. 

Vi uma menina bonita ontem.
Ich sah ein schönes Mädchen gestern.

Schön quer dizer bonito, bonita. E pode declinar em schön, schöne, schönen, schönes, schöner. Depende de um tanto de coisa. Parece igual, só que não. Mais tabelas e mais 7 minutos pra calcular como se pergunta quem pegou a caneta. Ou seja, você fica calado. Só não vale transformar isso em bloqueio. Uma coisa é ter preguiça de entrar numa conversa e ver as caras dos caras te esperando como se você fosse gago - e nessas horas você é. Melhor dar um prazo pra preguiça ir embora. Já outra coisa é ficar com vergonha disso, aí já não pode. E claro, nada melhor do que duas cervejas pra danar a falar. Isso foi até tema de um texto da escola: cerveja ajuda!

Tenho dois problemas atualmente - não consigo administrar os tempos verbais, principalmente no passivo. Passivo é o ó. Ainda mais que há mais de uma maneira de dizer a mesma coisa (pelo menos é a mesma coisa pra mim) e fico tentando entender porque de fato há dois motivos. Tentar entender demais não é bom. Konjuntive também tem sido a pedra no meu sapato. Konjuntive é “se eu tivesse ido, ele teria feito”... Bom é saber que isso em Português também é osso. E em Português as palavras ainda tem acento. Coisa boa, bem feito! - penso eu, me vinguei. Mas enfim, nessas horas sempre lembro que se eu aprendi a declinar os artigos e os adjetivos e hoje nem me preocupo mais com isso, é bem possível que num futuro não muito distante eu compreenda esses tempos verbais. Uma hora vai ter que acontecer. 

E por último, quando eu achava que meu problema eram esses tempos verbais que aprendi agorinha, ou não aprendi agorinha, me aparece o bendito Discurso Indireto, que é a coisa mais revoltante, idiota e pedante. Antipatia. O discurso indireto não faz sentido, não entra na minha cabeça e depois de quatro meses seguidos de aulas diárias, me dou ao direito de recusar. Discurso indireto não quero, não vou, sobreviverei sem. Pelo menos por enquanto. Greve, motim, revolução. Pra mim, uma ex-CDF, é um avanço. 

A escola é legal, já falei isso. Mas estou chegando no limite da motivação. Já vi a gramática quase toda e com o que me ensinaram dá pra se arranjar muito bem. Já com o que eu aprendi nem tanto. Meu maior problema hoje nem são os tempos do Konjuntivo nem a voz passiva do bendito, mas o vocabulário. Se eu soubesse mais vocabulário, tudo seria mais fácil. Erro de gramática se resolve, as pessoas te entendem mesmo assim, mas sem vocabulário ninguém vai te entender. Mímica não é linguagem de sinais. Tem limite e muito engano. 

Pelo menos estou igual a todo mundo: sem aquela motivação inicial e desesperada por um HD externo pra armazenar palavras novas e seus fenômenos correlatos. Do tipo: “ankommen, bekommen, kommen” são verbos diferentes. Assim como “verlassen” e “verpassen”, “gesicht”, “gericht” e “geschichte”, “kühe” e “kühl”. Meus favoritos são “scheinen”, “schneien”, “schneiden” e “schneinen”. O sol brilha: die Sonne scheint. E a neve não brilha, die Schnee (a neve) schneit, a neve neva. Mesmo tema, mas diferentes temperaturas... 

Tem horas que dá até vontade de aprender linguística. Se não fosse a vida real, seria lindo ficar o dia todo pelejando com os significados e etmologias. “Zufrieden”, por exemplo, é uma palavra que adoro. Significa “satisfeito” e é formada pela preposição “zu” e pelo substantivo “frieden”. “Zu” é como se fosse “para”, “em direção a”. Meio que indica um movimento em direção a alguma coisa. E “frieden” quer dizer “paz”. Quando alguém está satisfeito, está indo em direção à paz. Fala sério... isso é lindo.

August 27, 2012

O dia em que me casei

Já fazem dois meses que a gente se casou no papel aqui em Frankfurt. Ao fazer outras coisas, acabei revendo as fotos desse dia. E fiquei pensando que foi um dia muito legal. 

Eu nunca fiz parte da turma que sonhava quando criança e adolescente com vestido de noiva, igreja, festa. Nunca fui muito de sonhar, assim, sonho mesmo - muito menos dos desse tipo. Não cresci num ambiente doméstico propício a príncipes encantados. Como todo filho único, sempre ouvi muita conversa de adulto e o que eu ouvia não me encorajava a sonhar. Me lembro bem da frase de uma amiga da minha mãe: "a gente acha que casa com o príncipe, mas na verdade, casa com o cavalo do príncipe". Estimulante não?

Ao mesmo tempo, também como todo filho único, sempre tive muito tempo pra pensar. Carrego isso até hoje comigo e gosto. Delma, minha grande amiga de adolescência, sempre me perguntava quando é que eu pensava as coisas que pensava, se era no banho, se era durante as noites insones. Me lembro de ter muita insônia quando criança. E apesar de pensar tanto, nunca entendi esse duelo "mulheres-enganadas x homens-cavalos-e-não-príncipes". Mesmo sem entender, nunca questionei os donos do conflito. Deixei isso pra lá e fui de cá vivendo a minha vidinha. Fui fazendo o que tinha que fazer, estudei, trabalhei, fiz amigos, namorei muito, até que percebi que sempre acreditei no amor. Fui perceber isso bem tarde, lá pelos 27. Eu acho que até essa idade a gente ainda insiste em acreditar nos nossos pais e ao mesmo tempo temos vergonhinha de ser diferente. Acreditamos que eles detém uma verdade eterna, principalmente as nossas mães. Acreditamos que elas são seres mágicos e que por isso podem e sabem tudo. Como se o cavalo do príncipe fosse uma norma, um padrão.

Sempre fui das metas, das vontades, mas não dos sonhos. Ou pelo menos não com esse nome. Ou talvez, nunca admiti que as minhas metas eram na verdades sonhos imensos, os maiores. Talvez também somente por serem sonhos, tive um dia forças para lutar por eles. Nunca ousei chamar as minhas metas de sonhos porque o barato do sonho é sonhar e não conseguir. Sonho é diferente de meta. O tchan do sonho está mais na fruição do sonhar do que na coisa pela qual se sonha. Sonhar é delícia, é prazer. Na minha casa nunca foi muito permitido sonhar, nunca foi bonito sonhar. Se eu fiz, foi caladinha e escondida de mim mesma. Claro, devo ter sonhado muito, mas de verdade não me lembro. Me lembro de ter metas, sonhos disfarçados.

Pela avalanche de acontecimentos dos últimos tempos, não me permiti concretizar sonhos tardiamente sonhados. Final das contas, hoje eu entendi que eu queria muito muito muito muito ter tido um casamento ao algo do tipo no Brasil, com festa, amigos, banda e família tudo junto e misturado. Quando dei por mim que queria isso assim, de verdade, já era tarde demais. Outras coisas passaram na frente, inclusive a novidade, pra mim mesma, de querer isso. De um jeito ou de outro, não me casei com o cavalo do príncipe e continuo achando que meu casamento como foi tem mais a minha cara e de Moinul. Ah, e me casei com ele, o Moinul mesmo, e com todo o pacotinho dele. Ele não é um príncipe - a monarquia já acabou. Mas é a melhor pessoa que conheço, a mais íntegra, a mais leal, a ele e aos outros. No dia em que nos casamos, no papel,foi totalmente diferente do que a gente imaginava. Ops, na verdade não imaginamos nada - não deu tempo! E nesse dia, que passou como um foguete, tive muitas provas do que é real e bom e daquilo de que de fato temos que nos lembrar e levar em conta.



Vou me lembrar pra sempre que os pais do Moinul (que vivem separados há mais de 15 anos e têm até hoje uma relação complicada) vieram de Berlin de surpresa. Saíram de lá às 7 da manhã (o que significa sair de casa às 5 da manhã) e bateram na nossa porta às 8. Mamazinha (é assim que chamamos a mãe do Moinul) comprou no dia anterior um monte de flores e não sei como trouxe tudo no avião. A minha admiração por esse feito, que pode parecer pequeno mas não é, é assunto pra páginas e páginas, prefiro deixar pra depois. Quando chegaram, achei que fosse o correio. Não era, eram os dois, iguais a dois coleguinhas. Foi lindo.

Vou me lembrar sempre de Nívea, nossa tradutora, carioca mais que porreta, emocionadíssima, revivendo o casamento dela no mesmo lugar há 24 anos atrás. Ela se esquecia das palavras em alemão e pedia que a oficial repetisse de novo. Aí esquecia a palavra em português e lá do fundão gritava minha sogra: "paixão"! Foi lindo assistir a união da família Haque de novo. Depois das devidas assinaturas, na linda sala do Römer, fomos comer pão de queijo e tomar pingado, suco de maracujá, de carambola, na loja da Nívea. Mamazinha tava cansada, Moinul exausto. Baba precisava botar as perninhas pra cima. Eu tava elétrica e fui com Tia Ann e Robertinho comer fritas e bife. Na verdade eu tomei uma sopa. De tardezinha fomos pra Sachsenhausen, um bairro de Frankfurt, no Restaurante 360°, jantar com amigos brasileiros, recém feitos. Rafael, Andreas, Mário, Georg, Tati, Analu, Kai e Julia. Ganhamos tantos abraços apertados! Às 8 da noite Mamazinha e Baba voltam pra Berlin. Mamazinha jura que tá de pilequinho após uma única taça de vinho. O gerente do restaurante nos deu um espumante. 





No outro dia foi uma quinta-feira. Dia normal, exceto por termos acordado um pouco mais tarde. Moinul foi trabalhar, eu fui pra escola. De noite andamos de bicicleta ou algo assim. Quer coisa melhor? Dia normal, vida normal, vida boa. À noite, estávamos meio cansados. Mas como todos os dias, esse terminou com a fala de Moinul (em português): "E então Lovinha, vamos dormir?"

August 15, 2012

Rotina I

Tem gente que adora rotina. Tem gente que odeia. Eu escrevo este post para dizer que mesmo ausente e imersa na minha curiosa rotina, ora caótica, ora espartana, não fico um só dia sem pensar e lembrar e relembrar de meus amigos queridos - para quem criei este blog. 

É estranho. Eu queria contar tantas coisas e dividir, mas na hora de botar no papel parece que a energia não está lá aonde deveria estar e mesmo com tantas redes sociais, demanda um monte a comunicação com aqueles que amamos. Ao mesmo tempo, sinto uma enorme necessidade de ficar comigo mesma, quase que imersa em "condições ideais de temperatura e pressão". Isso vicia, mas não é por mal. 

Desde cheguei em Frankfurt-Round-2, no início de Junho, o tempo voou. Meu cansaço é grande e tem dias que tenho a sensação que não fiz nada - "mas o que foi mesmo que eu fiz essa semana?" Há dias em que me acho um ninja, fico orgulhosa dos meus pequenos feitos e me sinto um pouco mais lúcida. Há momentos em que acho que toda a burocracia  que enfrentei foi tão pouquinha e que foi mole, tomar doce de criança. Há dias em que tenho certeza que vou entregar os pontos. Agora porém, cheguei num ponto quase final. Uma hora isso tem que acabar! Pois é, estou quase lá. 

Queria contar um pouco dessas peripércias. E nos entremeios ir lembrando de vocês, meus heróis. 

Meu dia tem começado entre 6:30 e 9:00. O horário do meu despertar variou bastante nos primeiros dois meses. Só agora se estabilizou às 7:15 ou 7:30. E vocês sabem que não gosto de acordar tarde. 8:30 pra mim é quase a hora do almoço. Até porque há todo um protocolo a seguir de manhã, o que inclui ouvir trechos de duas novelas globais pela internet, tomar medicamentos, literalmente arrancar o Moinul da cama (esse se pudesse dormiria até as 10) e fazer o n.2. Está um super verão aqui, então agora não dá dó de sair da cama, o que também ajuda. Se começo às 9, provavelmente resultado de alguma peripércia do dia anterior (isso inclui uma caneca monster de cerveja, dormir muito tarde ou alguma comida punk), a coisa geralmente custa pra voltar pro lugar. Explico: gasto entre 2 e 3 horas por dia para fazer o meu dever-de-casa do curso de alemão. E isso sem estudar e fixar as palavras novas, que são muitas e são grandes. Se assim fosse, eu gastaria 4 horas numa boa. Nein, danke! Se acordo às 9 e gasto 40 minutos com meus protocolos matutinos (que agora incluem cremes para a pele), já são quase 10, somente 2 horas antes do meio-dia, quando eu tenho que preparar meu almoço, almoçar e talvez tomar banho para ir pra aula arrumadinha às 13:20. Há dias em que não dá tempo e como a escola é bem perto de casa, tudo bem. Débora vive me falando que eu tenho mais é que aproveitar, porque "quando a coisa ficar punk", não vou poder escolher acordar às 8:30... Sim, concordo com Milady, mas o ponto é que preciso da rotina. Da digamos "rotina ideal". Preciso dela porque me permite fazer as coisas do jeito que gosto e que me fazem sentir bem. Isso inclui uma manhã produtiva, com direito à banho gostoso antes da aula, almocinho leve, 2 garrafas de 750ml de água, expresso de manhã com um golinho de leite, vitamina porreta 30 minutos depois de acordar. Desse jeito, tenho energia para além do dever de casa, resolver pendengas burocráticas do everyday-life germânico, responder emails, ler e fazer coisas especialmente deliciosas de se fazer no verão daqui. Acho que Agosto tem sido fofo. Junho foi difícil. Eu, recém chegada do Brasil, uma avalanche de sentimentos e pensamentos sem mais pra onde. Julho foi puro recovering e Agosto... acho que Agosto tem sido fair

Tem gente que fala que meu humor muda rápido demais. Sempre lembro disso. E claro, me lembro porque vejo o danado mudando mesmo. Não só ele, mas a autoestima, a confiança em si, a referência. O caos vem "facinho, facinho", basta uma palavra, um gesto. Tenho segurado as pontas. E claro, a presença de Debinha me ajudou muito. Cuidamos da auto-estima, fizemos compras de cremes e maquiagem. Uso tudo todos os dias - um avanço. 

Os assuntos burocráticos estão quase no fim. Balanço parcial: uma certidão de casamento alemã e uma internacional, uma permissão de residência, uma de trabalho, três projetos de doutorado escritos e enviados, declaração fiscal. Ainda em andamento: certidão de casamento brasileira, seguro de saúde, procuração para venda do meu carro. Pendentes: passaporte novo. Prefiro não comentar quanto (€) tudo isso tudo custa, mas faço questão de acrescentar que isso significa em média três idas a cada órgão burocrático correspondente. Procurei fofinha usar essas oportunidades para treinar a língua. Quando conseguia, me sentia a tal e até fazia piada com o funcionário. E claro, você não tem que falar tudo certo, mas se tenta, se se esforça em falar, pessoinha te trata melhor, percebe que você está fazendo a sua parte. Típico. 

Minha sempre companheira é minha bike, recém carinhosamente reformada por Moinul. Como sou preguiçosa pra fazer esportes, procuro pelo menos duas vezes por semana ir pro centro da cidade de bike. Se tenho algo a resolver por lá - e sempre tenho, é ela quem vai me levar. Gasto 40 minutos pra ir e 40 pra voltar. E claro, se fico cansada na volta, pego o trem e levo a bike junto. Ns trens urbanos e metrôs na Alemanha você vê de tudo: de gaiola de passarinho a bicicletas grandes e dobráveis, carinhos de bebês trigêmeos, noivas fazendo campanha pro casamento. Meus preferidos são os velhos - aqui eles andam de trem pra lá e pra cá, vão à Ópera e enchem a cara de vinho de maçã. Super paqueram nos mercados de rua, têm turma. No Kleinmarkt todas as quartas feiras, há uma espécie de feira de vinhos - a região do Reno é famosa por isso. O pessoal super bebe, fuma e conversa. Dá pra ver o fumacê de longe. As senhorinhas super maquiadas e bem arrumadas. Já fui umas duas ou três vezes e fiz uma amizade. É tipo o "Opção" em BH. A mesma coisa e as mesmas pessoas todos os dias. E é ótimo. 

Ando muito de bike pelo meu bairro. Atrás da nossa casa tem um parque. Tem rio, banquinho e mesa de pique-nique. Patos e castores. Vi um castor nadando. Tive que confirmar na Wikipedia se era um castor mesmo. Um pato veio pro meu lado um dia. Putz, fiquei com medo, afinal meu Health Insurance ainda está em andamento...! Não posso levar uma bicada sequer. 



July 23, 2012

um mundo de pequenas alegrias

E assim é o jeito é. As pequenas alegrias nunca foram tão grandes para mim. Às vezes são objetos, às vezes pequenas atitudes ou uma palavra nova que se aprende ou alguém que te entende na rua e abre um sorrisão dizendo obrigado. 


Minha nova lapiseira grafite 2.0. Na verdade é uma mini-lapiseira. Já tive uma vermelha, mas perdi. Achei numa livraria e realizei hoje o antigo desejo que não pude realizar enquanto tinha a velha, pois não deu tempo, perdi antes. Comprei grafites 2B! Grafites 2B com lapiseira 2.0. 


    

July 18, 2012

ufa

A inspiração pra escrever vem e vai num minuto. Quero muito e não quero nada. É assim no dia-a-dia e nessa tarefa, tão prazerosa. Acho melhor dar gotas diárias da minha vida diária. 

O computador estragou - caos, desespero, vazio interno (what a fuck?!?!). Pra consertar, eu ia gastar 200€, sendo que eu sei o que aconteceu e eu mesma daria um jeito na coisa. Deixei essa ideia de lado, falei brigada! pro técnico, aposentei o velho, que ainda vou eu mesma consertar e comprei um novo <3. Assim como a bicicleta, já é meu chapa. Nossa relação é recente, mas profunda. Computador novo é igual caderno novo. A gente quer tudo arrumadinho, grifado com cores diferentes! Vou começar um caderno novo de alemão, estou ansiosíssima, até reservei canetas novas. Pequenas grandes alegrias parte 46.372.

Minha viagem fantástica pelo mundo dos documentos ganhou novos: duas certidões de casamento, uma em alemão e a outra internacional (gente, casei!); papéis de seguro de saúde que nem Moinul entende; tenho um papilinho que fala que tenho residência e posso trabalhar. O momento em que ouvi da mulherzinha que eu podia trabalhar foi lindo, quase chorei! Quase a beijei e abracei. Mas me controlei. Ela poderia se arrepender. A saga "residência/visto" merece ser contada em tirinhas.... Os funcionários da repartição daqui são personagens de tirinhas. Só que ao invés de te fazerem rir, eles podem te fazer cometer um homicídio. Tentarei fazer a tirinha. 

Os papéis para aplicar doutoramentos são infinitos e se multiplicam como ácaros. Isso é tão chato que nem vou comentar. Canseira...

Fui num casamento em Berlin e tirei o segundo lugar na dança das cadeiras! Prêmio: uma garrafa de espumante! Pequenas grandes alegrias parte 46.373. 

Debinha está aqui (na verdade ela agora está em Dresden). Que sentimento louco esse de receber um amigo aqui. <3. Não consigo explicar! Débora é nota doce no mundo cão, inspiração!

Agora sou B1! (merece um ohnnnn meu carinho comigo mesma em ter orgulhinho de sair do nível A).... Novos colegas, agora somos uma super turma e novos professores. Senka continua na minha turma e continua porrrrrrreta demais. Os professores novos são os melhores que já tive! Uma dupla dinâmica que fala com a boca aberta (alemães geralmente falam com a boca fechada e eu preciso entender o que eles fazem com a boca pra poder imitar ora bolas)! Eles enfiam as coisas na nossa cabeça - aula / fórceps. Dessa vez temos muitos coreanos e um japa nada japa. Um ukraniano/turco que é do Azerbaijão que é miguxo, mas tá me irritando; e de novo africanos, nepaleses, chineses, espanhóis, palestinos. Nessa turma, a latinoamérica está melhor representada - Equador e Colômbia.... 

Moinul consertou minha bike, agora tem novos freios e pneus. Meu freio novo é vermelho. Pequenas alegrias parte 46.374. 

Não há verão... há chuva, chuva, chuva. O sol tá de deboche ?...!

Estou tentando ler quadrinhos em alemão, do Strizz, um hominho-típico-trabalhador-de-escritório de Frankfurt. Comprei a coleção por 1€. Minha inspiração pra produções futuras, quem sabe menos texto e mais ação?


June 18, 2012

.... sem tempo para escrever, nem refletir. só burocracias e mais burocracias! sou secretária de mim mesma! que saudade do blog......... aguardem, eu voltarei!

April 26, 2012


Um livro de boas vindas é dado de presente aos recém-chegados moradores de Frankfurt que se registram na cidade. Por exemplo: se eu matar alguém, a polícia vai saber onde eu moro e é lá onde vão me procurar. Com esse registro, posso burocraticamente existir, abrir conta em banco e solicitar a tal residência permanente, que é o que preciso para ficar aqui. Não é um CPF nem um visto, é uma eAT (eletronic residence permit). O curioso é que dentre as tantas perguntas do formulário para solicitar a moradia permanente, há o principal a ser preenchido. No meu caso, vou marcar o “x” no item Familiäre Gründe, uma expressão que quer dizer “razões familiares”. Eu, estudante do novo idioma, só penso na etmologia das palavras, muito incentivada por minha sogra, meu Google Translator - Thesaurus Oxford pessoal. Ela também adora fazer conexões entre vocábulos. Em alemão isso ajuda muito, pois torna as palavras gigantes o meu menor problema com a língua, além de ser muito divertido. Enfim, o caso é que o verbo gründen significa “estabelecer”. Marcar o "x" é literalmente escolher, dentre outras opções, “estabelecer uma família”. Que responsabilidade. Dá um medão, dá várias coisas ao mesmo tempo. Dá inclusive, um risinho no canto da boca e uma vontade oculta, agora revelada, de ficar pesquisando nomes de crianças na internet. O fato é que, na vida prática, marcamos o “x” a toda hora, a todo o momento, às vezes sem pensar e sem nos darmos conta. Só que ontem esse “x” magicamente se materializou na minha frente, sobre uma mesa de atendimento ao cidadão, depois de uma fila enorme e senha 1127. Pensei até em comprar uma caneta nova para esse “x”, tão especial. Afinal, canetas são muito importantes. Suas cores e tipos de traço revelam muito sobre as pessoas e seus “xizes”.

Quantos “x” eu já marquei sem pensar, só chutando pro gol. E quantos eu também deixei de marcar e deixei tudo em branco. Eu e todo mundo, claro, não falo só de mim. Deixar em branco é péssimo, melhor reclamar com o chefe da repartição que não tem formulário adequado pra você. Se foi gol ou não, não importa, mas seria interessante e no mínimo alegre, se pudéssemos sempre tirar aqueles 2 minutos pra admirar os “xizes” e sobretudo nos orgulharmos deles. Dar o risinho de lado.

Quem teve a ideia de dar esse livreto para os recém-habitantes é um gênio. O cara pode até ser mal intencionado e o tal livreto ser um pirulito que adoça, mas não alimenta. Fato é que não há sensação melhor do que sair do tal órgão público empunhando seu papelzinho de registro ainda mais com um presente de boas vindas!!! Não há alegria e emoção maior! Quase chorei e quase abracei a atendente. Aí imediatamente depois fiquei rindo de mim, por estar tão feliz de ganhar o singelo regalo.  O livrinho se chama Ei Gude, até onde eu entendi uma expressão típica regional, talvez dos tempos mais antigos, que quer dizer “seja bem vindo”. 

April 24, 2012

Hoje não entendi nada na aula, nem falei nada, nem escrevi direito. Meu dever de casa estava todo errado. Não consegui me expressar direito no debate e me entenderam errado. Sei que não é um grande problema, mas é ruim que dói. 


Snif.

April 17, 2012

Viele Sachen, Um tanto de coisas.

Claro que tem mais comida e mais gente. Sushis gigantes, colegas do curso e o professor príncipe. Mesa de páscoa e a exposição do Gehard Richter em Berlin. Meu quadro escolhido para a aula de alemão, que diz bem um monte de coisas sem precisar escrever, meu favorito do Escher. Primavera chegando e eu cortando o cabelo numa biboca de Rödelheim - que bom que cabelo cresce e que tenho tesoura e espelho em casa. Parte boa, ganhei um cappuccino da cabelereira. Celebração de Páscoa dos africanos da Eritréia, bem no centro de Frankfurt no sábado passado.







April 10, 2012

Deutschekurse

Percorrendo o caminho usual dos estrangeiros na terra nova, me matriculei num curso de alemão. Hoje faz uma semana que as aulas começaram. Meu curso é uma espécie de intensivão, com aulas diárias de três horas e meia de duração. Meu curso fica no meu bairro e assim, pude economizar o dinheiro do ticket mensal de transporte, amei. Dei muita sorte, depois de ter dado um azar danado. Geralmente, quem chega aqui vai logo pra Volkhochschule, uma escola para adultos, onde há aulas de dança, business english, culinária, tudo o que quiser, hindi, chinês, português. Lá é o INPS das escolas de idiomas e afins. Filas gigantes e gente do mundo inteiro, sem saber falar nem uma palavra, muitos expatriados e exilados que precisam fazer a tal da "integração". Um mistério esse país abrir as pernas pra tantos estrangeiros. Está certo que sem os turcos, os alemães não comem, não lavam o carro e nem vão ao supermercado, mas isso é pouco. A coisa não é por aí. Há algo que ainda não consegui entender de verdade. Enfim, o fato é que eu fiquei uma tarde inteira na Volkhochschule pra no final, aos 47 do segundo tempo, saber que não havia mais vagas. Lá é meio longe e voltei adordoada, já que em apenas uma tarde, você é registrado e passa por uma espécie de triagem, que inclui uma prova com 80 questões de múltipla escolha e cinco de escrever, além da matrícula/entrevista final. Tudo-ao-mesmo tempo-agora. Esse dia foi o dia da chamada quase-sorte ou, ao contrário, do quase-azar. Voltando de lá, vi que tinha perdido a cópia do meu passaporte. Eu aproveitei para tirar um xerox do original e, de tão lerda, quase esqueci-o dentro da máquina. Depois de 80 questões, eu mal sabia descobrir o caminho pra casa, quanto pior manusear uma máquina de cópias automática. Um moço bonzinho me salvou: "hey, você não esqueceu seu passaporte aí dentro?". Respondi: "my angel". Aí, voltei pra casa borocoxô, mas com uma esperança desesperançada da coisa se resolver no dia seguinte. Foi quando fui parar na Lehrerkooperative (Cooperativa de Professores), no coração de Frankfurt. Sem vagas. Aí fui na Berlitz - uma fortuna. Passei na biboca brasileira pra tomar um pingado e foi lá que fiquei sabendo do Zentrum, minha escola, bem aqui no meu bairro, atrás da estação de trem. Na volta pra casa, fui até lá e enfim, uma lindeza. Talvez pela peleja de arranjar o curso, amo a escola. Além do mais, vou de bicicleta e faço comprinhas na volta, vou aos correios, esperando a primavera que nunca chega. Ou chegou e sou eu que não entendi que é assim mesmo.

De novo, confirmo: adoro escola, colegas e professor, intervalo,  merenda e dever de casa. Minha escola tem até uma máquina de café, que tem um ótimo chocolate quente por uma pechincha: 50 centavos. Tenho dois professores. Funciona assim: a primeira metade da tarde é com um professor e a segunda metade é com o outro. Eu odeio o primeiro, um velhinho chamado John que nunca troca de roupa - incluo calça, blusa, suéter e meias, e tem voz de locutor. Ele fala rápido demais e acho que no fundo debocha da gente. Pra mim, ele tem verdadeiro prazer em pronunciar o nome das chinocas errado. Ele nunca abre uma discussão, não dá tempo pra processar. Longe de mim querer disputar com a língua dele, mas tem coisas que precisam ser questionadas para serem entendidas. Com ele, é o que é - ganhou a minha antipatia. Meus colegas também não gostam dele: "the Gestapo guy". Os colegas são umas peças. Tenho inclusive que tomar cuidado para não me distrair com suas roupas, unhas, cabelos e jeitos, estojos, cadernos, jeitos de anotar e esquecer da aula. Ninguém é punk ou tatuado. Todo mundo muito normal e de tão tipicamente normais aos seus lugares de origem, me apresentam assim tão cheios de mistérios e me interessam tanto.

Eu fiz questão de decorar os nomes, pois são emblemáticos! A turma é grande e, por isso, trabalhamos muito em duplas. Minha dupla é sempre Xao, uma chinoca muito porreta, extremamente eficiente, inteligente e rápida. Ela me ensina muito e tem um super dicionário chinês-alemão-inglês no ipod. Além de Xao, há outra chinoca, a Liu, que não fala coisa nenhuma de nada, coitada. Foi um custo pra perguntar pra ela onde ela corta o cabelo. E pior ainda pra entender. Quem sofre é o partner dela, Josí, um español (olééé!) do país basco meio classe trabalhadora - bem mulheres, tirem suas próprias conclusões. Além desses, tem minha super chegada Senka, um mulherão da Croácia, que estuda filosofia e vem pra aula super maquiada com sombras mil e tem raiz preta no cabelo de uns 5 cm. A mulher é um foguete, fala italiano lindamente... Ela é a melhor da classe, apesar do sotaque balcânico carregado. Ela sempre faz dupla com Enrico, o venezuelano que fala alemão com sotaque espanhol terrível - esse só posso imitar ao vivo. Enrico tem nome de novela mexicana, tipo Enrico Miguel, ou algo do tipo, e apesar de sotaquento é muito inteligente. Tipo da minha idade, engenheiro mecânico. Além desses, tem o Vijay, do Nepal; o Usama da Tunísia; uns três japas mega eletro-equipados que acabaram de chegar; uma camaronense super inteligente chamada Christie <3; uma dupla de jovenzinhos que querem curtir a vida - Yenes e David, da Holanda e da Eslováquia, respectivamente. E, finalmente, o cara da palestina, Mohamad e o americano ex-soldado no Iraque, Aaron. Só pra constar, porque também tive dúvidas, Palestina não é Israel - se eu falar isso o menino não vai gostar! Palestinos são os árabes - lembram do Yasser Arafat? Então, ele é de Hebron, menor que Divinópolis, capital da Cisjordânia. Não preciso explicar que o Mohamad começou devagar mas é um gentleman e usa camisas sob o suéter magrelinho. Calado, sóbrio, na dele e muito esforçado. Veio pra Alemanha pra estudar Medicina. O americano só sabe falar que gosta de country music e baseball - desculpem gente, não desceu. Ele insiste em falar Derrrrrrr, Wirrrrrr. Ahhh, que pôxa! Se Xao, uma chinoca com problemas de dicção dá o melhor de si para falar direito, faça-me o favor!

O segundo professor é o príncipe encantado da turma. O cara nasceu pra ser professor. Tão delicado... ele faz a aula no nosso compasso - e assim, rende tanto! Passa num minuto. Ele é esperto, extremamente observador e perpicaz, além de poliglota. Quando não tem como entender uma coisa nem em inglês, ele simplesmente sabe a palavra na língua de quem estiver ali. Um mistério. Visualizo ele com duas filhas e uma imensa biblioteca. Ele é magrelo de doer e tem um sofrimento nos olhos. Sua nacionalidade é indecifrável.

Fico pensando quem são essas pessoas, quem são os seus amigos e seus pais, se têm irmãos. As chinocas provavelmente não. De quê elas tem medo? Fico imaginando quanto dinheiro tem na sua conta bancária ou que tipo de música ouvem. Se estão tristes ou felizes. Se tomaram banho antes de vir pra aula. Se sentem falta do seu país ou se é um alívio estar aqui. A escola é território neutro, um dos poucos dos quais eu já pude experimentar. Não interessa o que você é ou deixou de ser, se é bonito ou feio, rico ou pobre. Nessa horas vale o que você é no presente, naquele segundo ou nos cinco minutos da tarefa em dupla. E pra isso, precisa de pouco. Estou me contentando com esse pouco e não sei se isso é bom ou ruim. Observo muito o jeito de meus colegas se portarem. A humildade e o respeito de Mohamad com a aula e os colegas e o jeito debochado de Aaron... o que me irrita profundamente. A delicadeza de Usama e o francês de Christie posso ouvir pra sempre. Essa é outra que sempre confronta o professor chato. As chinocas são uns chaveirinhos, principalmente Xao, que sempre é minha partner. Ela tem a minha idade e era professora de inglês em Xangai. O melhor de tudo foi, mesmo sem saber miudezas sobre cada um, descobrir que vários deles, senão a maioria, vieram para a Alemanha por causa de seus amores, suas mulheres e maridos. Até com o Aaron foi assim. É, minha gente, será que no final das contas o amor é o que move o mundo?

A gente não quer só comida? Quem?


Comer é a coisa que mais gosto de fazer na vida. Não importa qual, nem onde e nem o preço. Com direito a pão de queijo e feijão preto, que não posso ficar sem ferro. =p


Quando subi na balança vi que berimbau não é gaita. Não foi funny. Dispensei explicações e postei fotos. Vocês entenderão... 
















April 02, 2012

Podia não ter sido, mas foi. Oba.

Há várias categorias para a imprevisibilidade. Há as coisas que deveriam ter sido, mas não foram; há aquelas que graças a Deus não aconteceram; há aquelas que ainda bem que aconteceram e, felizmente, há as coisas chamadas surpreendentes: aquelas que jamais aconteceriam, mas aconteceram. Para mim, essas são as melhores. 

De fato, a ocasião faz o ladrão: dificilmente uma arquiteta mineira, um biomédico pernambucano e um engenheiro paulista, de idades, gostos e vivências completamente diferentes conversariam por quase 8 horas seguidas se não estivessem aqui. Pode até ser clichê, não ligo. É de verdade. Eles não são meus amigos de infância, não sabem de onde eu vim e nem me conhecem direito. Não sabem qual minha cor predileta e nunca ouviram falar da cidade onde eu nasci. É engraçado como a gente não precisa de muita coisa pra poder ser a gente mesmo. É simples, não é complicado. Sem armas, quase pelado. 

Esqueci de mencionar os outros dois outros integrantes do bando: um meio alemão/meio bengali que fala português (hum?!) e um nativo de Frankfurt especialista em música clássica. Ouvimos Calypso, Leoni, Céu, Chico Buarque, Clementina de Jesus, Lenine, Olodum e metemos o pau no cd novo da Marisa Monte e na Rede Globo, tirando, claro, as novelas. Concordamos um monte e discordamos também. Aprendi umas coisas sobre a história da música na Alemanha de 70 a 90. Detonamos a Paula Fernandes e nem lembramos de ouvir Michel Teló. Uma pena =p .

Aí começa aquele processo de você querer ligar pros seus amigos pra eles também estarem ali e participarem da conversa e contarem uma coisa e lembrarem da música da qual você não se lembra. Aí você conta dos seus amigos para os novos amigos e os novos ficam querendo saber dos velhos. E você pensa na sua família e pensa como vai ser a sua própria. Imagina como seria se seus filhinhos estivessem ali. Tudo isso acontece em menos de meio segundo e por várias vezes. Como se fosse um pêndulo. Mas em nenhum momento a gente ficou triste: a gente só estava ali por estarmos longe do antes. Ou seja: tudo é bom.  

March 28, 2012

Um amigo disse assim...

"... sim, a gente não sabe de nada!
mas constrói com linhas cegas,
uma casa invisível."

March 27, 2012

Cidadinha semi-medieval

Então, amenidades! Nada de contar da mulher chata e sem-ducaçona que não abre a boca pra falar e reclama que é você quem não fala direito! =D

Hoje é dia de conto de fadas, sol, primavera e castelo.
Fomos ontem num passeio fofinho. Numa cidadinha ex-medieval chamada Königstein (Pedra do Rei). A cidadinha tem ruinhas muito estreitas com casinhas de boneca onde moram gente de verdade! Muita coisa deve ter sido reconstruída, mas me parece que boa parte do traçado da cidade permaneceu o mesmo. Pelo menos a parte mais antiga, que parece um feudinho, com portal e tudo. Acho que pode até ter havido uma ponte elevadiça. Acho que nunca escrevi isso: p-o-n-t-e  e-l-e-v-a-d-i-ç-a. 

O mais bacana foi ver as ruínas do castelo. Eu nunca tinha ido num, então fiquei mega imaginando onde eram as masmorras, onde era o grande salão, donzelas escondidas, cães raivosos. Muito lindo lá. Pra quem vier me visitar e tiver na wibe krull/willow é um bom passeio. Em uma horinha de trem se chega lá. E claro, lá tem uma padaria mára com o melhor chocolate quente de Hessen! 

Postei algumas fotinhas. Na última delas tem meu muso inspirador, só que de costas <3.  







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March 22, 2012

Waffle de maçã e mel sem pregos


Hoje foi um dia estranho. Acordei meio mais ou menos, dormi demais. Fiquei uns 20 minutos imóvel. Sabe aquele imóvel oco, sem mexer e sem pensamentos? Quando a cama está quentinha, eu fico ainda mais imóvel e mais inerte. Estou dormindo demais, redescobrindo como é dormir e como é bom. Ao mesmo tempo, não estou acostumada a dormir muito. Acordo achando que "the day is lost", como diz o sogro. Enrolei, enrolei, enrolei, meio assim sem eira nem beira. Não consegui sair da frente do computador, mas ao mesmo tempo não fiz nada. Não respondi emails, não escrevi, não procurei coisas que precisava, não preparei o almoço, fiquei só vendo imagens e passando por sites sem ler nem ver nada. Pensamentos ruins. Não queria encontrar ninguém, mas também não queria ficar sozinha. Eu sabia que eu tinha que fazer alguma coisa útil que me preenchesse a tarde antes de encontrar Moinul, pois não dá pra descarregar um dia inteiro de não-pensamentos, não-conversas e não-coisas no pobre. Não é justo e nem bom. 

Depois de muito muito tempo, tomei um banho e saí. Decidi ir comprar pregos pra fixar coisas na parede. A furadeira os vizinhos têm. Olhei no mapa, e vi que podia ir pra Konstablewache, uma praça grande com muitas lojas em volta. Lá também tem muitos caras de jaqueta de napa e calça coladinha. Lá fica a Conrad, tipo as Lojas Americanas só de prego, tomada, extensão, furadeira, bucha, trena, lâmpada, fio, adaptador. Achei que colocar coisas na parede ia ser uma boa, pois a casa vai pegando o jeito da gente aos poucos. Eu, na minha ansiedade que finge ser esperteza, não fico um só dia sem pensar se deveria comprar absolutamente tudo que vejo na frente para a casa nova. Essa ansiedade é colega dessa outra: imagino estratégias para aprender a língua, do tipo "hoje vou ler todas as placas e anotá-las, e decorá-las e..." Tentando ir de Maclaren onde o chão é de brita. 

Moinul, planejador (e ainda engenheiro) tem planilhas com créditos e débitos e colunas para as passagens aéreas e despesas futuras de casamento (que casamento?onde?quando?). No balancete final, um sofá está fora das compras atuais. Eu, ansiosa, quero um sofá. Sei que não é sofá que traz felicidade, mas também sei que eu quero me sentar hoje e não amanhã. Não preciso de um sofá. Mas a ansiedade quer tudo prontinho, arrumadinho, como se a vida pudesse ser assim, igual sala de estar - onde você só está, mas não faz nada. 

Mas então, meu primeiro amigo em Frankfurt, Florian, que é sociólogo, quer ser professor universitário e é muito caxias, me liga no caminho pra Conrad. Eu falo pra ele que precisava comprar pregos e digo que em duas horas a gente poderia se encontrar. Quando subo da estação, na tal praça com muita loja em volta, o lugar estava repleto de bancas de comidas e bebidas e flores e frutas. Havia uma feira com muita gente e muitos cheiros e andanças pra cá e pra lá. Fui na Conrad e eles só vendiam muitos pregos juntos. Eu não precisava de tantos. Afinal, nem são tantas coisas assim. Nessa hora eu não precisava de pregos e nem de sofás. Eu só queria voltar pra rua e ficar lá. E ligar pro Florian e falar pra ele vir agora, já, pra gente comer um pão e tomar um café ralo juntos. E foi isso que aconteceu. Conversamos um monte e ele ficou falando do trabalho dele, que é ficar lá analisando as pessoas. Ele conhece o Brasil e como todo sociólogo adora generalizar. Puxei a orelha dele, mas no final tive que ouvir quietinha que o brasileiro quer tudo pra já, só vive o presente, sem pensar muito no futuro. Não é de planejar e quer desfrutar o hoje. Não sei muito bem como não é viver assim. Tanto é que, como não planejei o dia, pude ir com ele até a estação central e ele achou um avanço eu mudar os meus planos (que eu nem tinha) para o acompanhar até lá. Foi ótimo, pois assim pude esperar pelo Moinul e ainda pegamos o resto da feirinha. Só sei que no final não tenho nem sofá, nem pregos e nem as coisas na parede - ainda




March 20, 2012

Músicos de rua





Aqui chega gente de tudo quanto é lugar da Europa. Por causa disso, eu posso egoisticamente, sem pensar no resto, me deliciar. Os homens tem cor-de-poeira-vermelha e olhos verde-amarelos. Acho eles lindos. Estão por toda parte, vestindo jaqueta de napa e calça coladinha. São músicos e outras coisas. Sempre pago a gorjeta e assisto ao show. 

March 17, 2012

Matemática

Não quero entrar na onda das comparações rasas e muito menos de erguer a bandeirinha morna do "na Alemanha, isso funciona assim, assim e assim..." Que saco. E falo isso porque essa frase é, na minha lista  Top 5 Bad Things in Germany , a número 1. Tem um povinho aqui que tem mania de te falar isso, num tom quase catedrático, como se estivesse dando uma aula quando você faz uma coisa errada, ainda que por engano.

Mas voltando ao assunto (as Top 5 Bad Things in Germany vêm outro dia), apesar de eu evitar, as comparações são inevitáveis. Mas não penso que elas sirvam para encher um ou outro caderno de estrelinhas. Acho somente que elas sejam boas pra gente pensar... e conversar. E sei lá... não dá pra não pensar. 

A experiência de sair à noite de bicicleta (sair à noite = tomar uma cerveja num bar simples, jantar na casa de alguém ou ir numa balada mesmo) é interessante. Moinul e eu saímos de casa SEMPRE de bicicleta porque o caminho até a estação é infinitamente mais rápido de bicicleta. Esse infinitamente é exagero, são só 4 minutos a mais. Mas é que a garantia, a certeza de dormir mais um pouquinho de manhã ou sentir menos frio quando na volta pra casa é irresistível. Não é pela quantidade de tempo, mas pela qualidade do que se faz ganhando mais 4 minutos. A pé de casa para a nossa estação gastamos 7 minutos e de bicicleta é num instante, 3 minutos! Eu nunca tinha me importado antes com 4 minutos para nada. Sim, porque 4 minutos a mais ou a menos quando o trajeto, ou a demora no consultório é de 40 minutos, são só 1/10. Mas agora, 4 para 7 é mais de 50%!!!! Aí quando se chega na estação, a gente tranca a bicicleta num poste e vai pra onde for de trem. E caminha, e pega o tram, e pega o ônibus, e chega no lugar que se quer. Sabendo que na volta, a amiga vai estar lá esperando a gente, pra menos 4 minutos de frio ou 4 a mais de sono.

Bom, estou falando tudo isso pra contar que eu comecei a fazer contas de quantos minutos se ganha na semana com esses benditos -4. Moinul, por exemplo, que vai e volta do trabalho todo dia, ganha 40 minutos! Isso sem contar o trajeto de bicicleta entre a estação de trem do trabalho e o escritório. A amiga-bike vai no trem com ele, gracinha. Então, contando as duas pontas do percurso, os 40 minutos por semana são pelo menos 80. 80 minutos é a academia, ou a ioga, ou o curso de dança que eu não tinha tempo de fazer em BH... snif. 





March 14, 2012

Tô verde

Nos últimos dias eu fiquei totalmente tomada pela preparação de burocracias mil. #NEM EU AGUENTO MAIS O MEU PAPINHO. Todo mundo me pergunta: "e aí, tá rolando?" E eu respondo começando com uai (odeio): "UAI, rolando tá, mais ainda falta o certificado da parafuseta do curso de alemão, e uma carta de aceite do irmão do joaquim e aí depois eu tenho que submeter um formulário online e só aí eu vou ter um código.... da cópia autenticada do c* do judas"... tsc tsc tsc 


Fora o ambiente da mesa de trabalho, com farelo, fio de cabelo, copo xujo, necessaire?!, dicionário, 8734 folhas soltas, cabo do celular, cabo do hd externo, cabo do carregador, cabo da p*** *** *****.... 




E o pior é que tenho a sensação que isso tem meses. Bem, na verdade tem mesmo. Semi-final das contas (ainda não acabou não viu gente!), com a ajuda do trio Rod , Barbarela e Paty, tudo será encaminhado em tempo. Obrigada de novo gente. Entendi por que essa p**** se chama DEADline. É porque você fica DEAD, meio verde/descabelada, tipo eu agora. 


De fato, o cabelo tá bom não. Além de sem corte, está oleoso na raiz e com aura ao mesmo tempo .... vai entender. Para curar essa peleja, comprei batatas-junkie no meu podrão favorito (algumas pessoas já conhecem). Explico. O nome do estabelecimento é "frango da batalha diária", ou algo assim.... Mais oportuno não há.  




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