April 26, 2012


Um livro de boas vindas é dado de presente aos recém-chegados moradores de Frankfurt que se registram na cidade. Por exemplo: se eu matar alguém, a polícia vai saber onde eu moro e é lá onde vão me procurar. Com esse registro, posso burocraticamente existir, abrir conta em banco e solicitar a tal residência permanente, que é o que preciso para ficar aqui. Não é um CPF nem um visto, é uma eAT (eletronic residence permit). O curioso é que dentre as tantas perguntas do formulário para solicitar a moradia permanente, há o principal a ser preenchido. No meu caso, vou marcar o “x” no item Familiäre Gründe, uma expressão que quer dizer “razões familiares”. Eu, estudante do novo idioma, só penso na etmologia das palavras, muito incentivada por minha sogra, meu Google Translator - Thesaurus Oxford pessoal. Ela também adora fazer conexões entre vocábulos. Em alemão isso ajuda muito, pois torna as palavras gigantes o meu menor problema com a língua, além de ser muito divertido. Enfim, o caso é que o verbo gründen significa “estabelecer”. Marcar o "x" é literalmente escolher, dentre outras opções, “estabelecer uma família”. Que responsabilidade. Dá um medão, dá várias coisas ao mesmo tempo. Dá inclusive, um risinho no canto da boca e uma vontade oculta, agora revelada, de ficar pesquisando nomes de crianças na internet. O fato é que, na vida prática, marcamos o “x” a toda hora, a todo o momento, às vezes sem pensar e sem nos darmos conta. Só que ontem esse “x” magicamente se materializou na minha frente, sobre uma mesa de atendimento ao cidadão, depois de uma fila enorme e senha 1127. Pensei até em comprar uma caneta nova para esse “x”, tão especial. Afinal, canetas são muito importantes. Suas cores e tipos de traço revelam muito sobre as pessoas e seus “xizes”.

Quantos “x” eu já marquei sem pensar, só chutando pro gol. E quantos eu também deixei de marcar e deixei tudo em branco. Eu e todo mundo, claro, não falo só de mim. Deixar em branco é péssimo, melhor reclamar com o chefe da repartição que não tem formulário adequado pra você. Se foi gol ou não, não importa, mas seria interessante e no mínimo alegre, se pudéssemos sempre tirar aqueles 2 minutos pra admirar os “xizes” e sobretudo nos orgulharmos deles. Dar o risinho de lado.

Quem teve a ideia de dar esse livreto para os recém-habitantes é um gênio. O cara pode até ser mal intencionado e o tal livreto ser um pirulito que adoça, mas não alimenta. Fato é que não há sensação melhor do que sair do tal órgão público empunhando seu papelzinho de registro ainda mais com um presente de boas vindas!!! Não há alegria e emoção maior! Quase chorei e quase abracei a atendente. Aí imediatamente depois fiquei rindo de mim, por estar tão feliz de ganhar o singelo regalo.  O livrinho se chama Ei Gude, até onde eu entendi uma expressão típica regional, talvez dos tempos mais antigos, que quer dizer “seja bem vindo”. 

2 comments:

  1. Oi Pris!

    Viva esse momento... sinta o gosto, dê o valor na medida exata: nem mais, nem menos.
    Deixe-se receber e, ainda que seja uma formalidade que, a todos na mesma condição que você, se faz necessária cumprir, enxergue como se tivesse sido criado exclusivamente para você.
    Faça-se importante simplesmente porque você é. Brilhe e acima de tudo espalhe o brilho! No final de tudo, a sorte é deles que acabam de ganhar um presente como você!

    Bjs carinhosos.
    Dona Pata

    (Detalhe: ontem mesmo estava olhando os nomes de bebê na internet.. rss. Reza para mim. Tô aqui tentando. bjs)

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  2. Carol, a sorte é minha de ter uma pessoa como vc em minha vida!
    E, quanto aos "nomes de bebês", vai fundo! Afinal, é ótimo praticar...hehehe

    Tuuuuudo vai dar certo. Menos ansiedade, mais confiança e fé. Como é mesmo a música do Lenine? "Quando a vida pede um pouco mais de calma...."

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