March 22, 2012

Waffle de maçã e mel sem pregos


Hoje foi um dia estranho. Acordei meio mais ou menos, dormi demais. Fiquei uns 20 minutos imóvel. Sabe aquele imóvel oco, sem mexer e sem pensamentos? Quando a cama está quentinha, eu fico ainda mais imóvel e mais inerte. Estou dormindo demais, redescobrindo como é dormir e como é bom. Ao mesmo tempo, não estou acostumada a dormir muito. Acordo achando que "the day is lost", como diz o sogro. Enrolei, enrolei, enrolei, meio assim sem eira nem beira. Não consegui sair da frente do computador, mas ao mesmo tempo não fiz nada. Não respondi emails, não escrevi, não procurei coisas que precisava, não preparei o almoço, fiquei só vendo imagens e passando por sites sem ler nem ver nada. Pensamentos ruins. Não queria encontrar ninguém, mas também não queria ficar sozinha. Eu sabia que eu tinha que fazer alguma coisa útil que me preenchesse a tarde antes de encontrar Moinul, pois não dá pra descarregar um dia inteiro de não-pensamentos, não-conversas e não-coisas no pobre. Não é justo e nem bom. 

Depois de muito muito tempo, tomei um banho e saí. Decidi ir comprar pregos pra fixar coisas na parede. A furadeira os vizinhos têm. Olhei no mapa, e vi que podia ir pra Konstablewache, uma praça grande com muitas lojas em volta. Lá também tem muitos caras de jaqueta de napa e calça coladinha. Lá fica a Conrad, tipo as Lojas Americanas só de prego, tomada, extensão, furadeira, bucha, trena, lâmpada, fio, adaptador. Achei que colocar coisas na parede ia ser uma boa, pois a casa vai pegando o jeito da gente aos poucos. Eu, na minha ansiedade que finge ser esperteza, não fico um só dia sem pensar se deveria comprar absolutamente tudo que vejo na frente para a casa nova. Essa ansiedade é colega dessa outra: imagino estratégias para aprender a língua, do tipo "hoje vou ler todas as placas e anotá-las, e decorá-las e..." Tentando ir de Maclaren onde o chão é de brita. 

Moinul, planejador (e ainda engenheiro) tem planilhas com créditos e débitos e colunas para as passagens aéreas e despesas futuras de casamento (que casamento?onde?quando?). No balancete final, um sofá está fora das compras atuais. Eu, ansiosa, quero um sofá. Sei que não é sofá que traz felicidade, mas também sei que eu quero me sentar hoje e não amanhã. Não preciso de um sofá. Mas a ansiedade quer tudo prontinho, arrumadinho, como se a vida pudesse ser assim, igual sala de estar - onde você só está, mas não faz nada. 

Mas então, meu primeiro amigo em Frankfurt, Florian, que é sociólogo, quer ser professor universitário e é muito caxias, me liga no caminho pra Conrad. Eu falo pra ele que precisava comprar pregos e digo que em duas horas a gente poderia se encontrar. Quando subo da estação, na tal praça com muita loja em volta, o lugar estava repleto de bancas de comidas e bebidas e flores e frutas. Havia uma feira com muita gente e muitos cheiros e andanças pra cá e pra lá. Fui na Conrad e eles só vendiam muitos pregos juntos. Eu não precisava de tantos. Afinal, nem são tantas coisas assim. Nessa hora eu não precisava de pregos e nem de sofás. Eu só queria voltar pra rua e ficar lá. E ligar pro Florian e falar pra ele vir agora, já, pra gente comer um pão e tomar um café ralo juntos. E foi isso que aconteceu. Conversamos um monte e ele ficou falando do trabalho dele, que é ficar lá analisando as pessoas. Ele conhece o Brasil e como todo sociólogo adora generalizar. Puxei a orelha dele, mas no final tive que ouvir quietinha que o brasileiro quer tudo pra já, só vive o presente, sem pensar muito no futuro. Não é de planejar e quer desfrutar o hoje. Não sei muito bem como não é viver assim. Tanto é que, como não planejei o dia, pude ir com ele até a estação central e ele achou um avanço eu mudar os meus planos (que eu nem tinha) para o acompanhar até lá. Foi ótimo, pois assim pude esperar pelo Moinul e ainda pegamos o resto da feirinha. Só sei que no final não tenho nem sofá, nem pregos e nem as coisas na parede - ainda




6 comments:

  1. halo, essa ansiedade de fazer da casa a NOSSA casa é natural, afinal vc precisa construir um ninho para chamar de seu, com ou sem sofá. só senti que fazia parte daquilo, aquilo nesse caso é a vida da cidade e nosso papel de cidadão, quando senti que não estava ali de passagem, que ali era o meu lugar, minha casa, minha cidade.
    só não concordo com a opinião do seu friend sociólogo, generalizou por demais... mas entendo a visão do estrangeiro.
    enjoy

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    1. Hummmmmmmmmmmmmm, entendo e sei que você bem visualiza e compreende a fala do Florian. Mas talvez ele não esteja de todo enganado, ainda que dando pato por ganso. Talvez a nossa geração até já tenha mudado um pouco. Já tenha experimentado o que é poder planejar - o que era um luxo até há bem pouco tempo atrás no Brasil (estou falando de + - 20 anos). Dê uma olhada pra trás e analise. Isso não é um defeito, só fruto das contingências. A vida por um fio te dá uma liberdade imensa: você pode tudo, porque não tem nada. Qualquer coisa já é alguma coisa. Voltei uns 200 anos agora. E esses caras de 200 anos atrás só tinham o hoje pra sentar no sofá e admirar o quadro na parede. Sendo assim, bora furar o buraco. Talvez sejamos a segunda geração (estou falando da minha família e da sua) que vem podendo experimentar uma outra lógica. Agora, por outro lado, planejamento é meio coisa de futuro, de quem tem estrada certa pela frente ou de quem tem que se preparar pra um longo inverno ou pra uma guerra desavisada. Enfim, fiquei pensando ... prá variar.

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    2. Eu paguei um aluguel bem Salgado em Londres pq queria me sentir segura e confortável. Comprei espelho, suporte para lenços e outro para os cremes no banheiro, e comprava flores sempre que podia. Comprei taças de vinho e um radio. Home, where is home??? E onde vc se sente bem.

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    3. Estou fazendo minha listinha... =D

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  2. Não sei porque... me emocionei...
    bjs
    Dona Pata

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    1. Dona Pata, provavelmente porque a senhora bem sabe o que é um coração ofegante por aquilo que a gente já nem sabe mais o quando, o onde e o porquê, de tanto querer. E depois a gente muda de ideia e volta atrás e lembra de novo e faz outra vez, mas de outro jeito e volta e torna a tentar. Tipo desse jeito...

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