
Hoje foi um dia estranho. Acordei meio mais ou menos, dormi demais. Fiquei uns 20 minutos imóvel. Sabe aquele imóvel oco, sem mexer e sem pensamentos? Quando a cama está quentinha, eu fico ainda mais imóvel e mais inerte. Estou dormindo demais, redescobrindo como é dormir e como é bom. Ao mesmo tempo, não estou acostumada a dormir muito. Acordo achando que "the day is lost", como diz o sogro. Enrolei, enrolei, enrolei, meio assim sem eira nem beira. Não consegui sair da frente do computador, mas ao mesmo tempo não fiz nada. Não respondi emails, não escrevi, não procurei coisas que precisava, não preparei o almoço, fiquei só vendo imagens e passando por sites sem ler nem ver nada. Pensamentos ruins. Não queria encontrar ninguém, mas também não queria ficar sozinha. Eu sabia que eu tinha que fazer alguma coisa útil que me preenchesse a tarde antes de encontrar Moinul, pois não dá pra descarregar um dia inteiro de não-pensamentos, não-conversas e não-coisas no pobre. Não é justo e nem bom.
Depois de muito muito tempo, tomei um banho e saí. Decidi ir comprar pregos pra fixar coisas na parede. A furadeira os vizinhos têm. Olhei no mapa, e vi que podia ir pra Konstablewache, uma praça grande com muitas lojas em volta. Lá também tem muitos caras de jaqueta de napa e calça coladinha. Lá fica a Conrad, tipo as Lojas Americanas só de prego, tomada, extensão, furadeira, bucha, trena, lâmpada, fio, adaptador. Achei que colocar coisas na parede ia ser uma boa, pois a casa vai pegando o jeito da gente aos poucos. Eu, na minha ansiedade que finge ser esperteza, não fico um só dia sem pensar se deveria comprar absolutamente tudo que vejo na frente para a casa nova. Essa ansiedade é colega dessa outra: imagino estratégias para aprender a língua, do tipo "hoje vou ler todas as placas e anotá-las, e decorá-las e..." Tentando ir de Maclaren onde o chão é de brita.
Moinul, planejador (e ainda engenheiro) tem planilhas com créditos e débitos e colunas para as passagens aéreas e despesas futuras de casamento (que casamento?onde?quando?). No balancete final, um sofá está fora das compras atuais. Eu, ansiosa, quero um sofá. Sei que não é sofá que traz felicidade, mas também sei que eu quero me sentar hoje e não amanhã. Não preciso de um sofá. Mas a ansiedade quer tudo prontinho, arrumadinho, como se a vida pudesse ser assim, igual sala de estar - onde você só está, mas não faz nada.
Mas então, meu primeiro amigo em Frankfurt, Florian, que é sociólogo, quer ser professor universitário e é muito caxias, me liga no caminho pra Conrad. Eu falo pra ele que precisava comprar pregos e digo que em duas horas a gente poderia se encontrar. Quando subo da estação, na tal praça com muita loja em volta, o lugar estava repleto de bancas de comidas e bebidas e flores e frutas. Havia uma feira com muita gente e muitos cheiros e andanças pra cá e pra lá. Fui na Conrad e eles só vendiam muitos pregos juntos. Eu não precisava de tantos. Afinal, nem são tantas coisas assim. Nessa hora eu não precisava de pregos e nem de sofás. Eu só queria voltar pra rua e ficar lá. E ligar pro Florian e falar pra ele vir agora, já, pra gente comer um pão e tomar um café ralo juntos. E foi isso que aconteceu. Conversamos um monte e ele ficou falando do trabalho dele, que é ficar lá analisando as pessoas. Ele conhece o Brasil e como todo sociólogo adora generalizar. Puxei a orelha dele, mas no final tive que ouvir quietinha que o brasileiro quer tudo pra já, só vive o presente, sem pensar muito no futuro. Não é de planejar e quer desfrutar o hoje. Não sei muito bem como não é viver assim. Tanto é que, como não planejei o dia, pude ir com ele até a estação central e ele achou um avanço eu mudar os meus planos (que eu nem tinha) para o acompanhar até lá. Foi ótimo, pois assim pude esperar pelo Moinul e ainda pegamos o resto da feirinha. Só sei que no final não tenho nem sofá, nem pregos e nem as coisas na parede - ainda.
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