Já fazem dois meses que a gente se casou no papel aqui em Frankfurt. Ao fazer outras coisas, acabei revendo as fotos desse dia. E fiquei pensando que foi um dia muito legal.
Eu nunca fiz parte da turma que sonhava quando criança e adolescente com vestido de noiva, igreja, festa. Nunca fui muito de sonhar, assim, sonho mesmo - muito menos dos desse tipo. Não cresci num ambiente doméstico propício a príncipes encantados. Como todo filho único, sempre ouvi muita conversa de adulto e o que eu ouvia não me encorajava a sonhar. Me lembro bem da frase de uma amiga da minha mãe: "a gente acha que casa com o príncipe, mas na verdade, casa com o cavalo do príncipe". Estimulante não?
Ao mesmo tempo, também como todo filho único, sempre tive muito tempo pra pensar. Carrego isso até hoje comigo e gosto. Delma, minha grande amiga de adolescência, sempre me perguntava quando é que eu pensava as coisas que pensava, se era no banho, se era durante as noites insones. Me lembro de ter muita insônia quando criança. E apesar de pensar tanto, nunca entendi esse duelo "mulheres-enganadas x homens-cavalos-e-não-príncipes". Mesmo sem entender, nunca questionei os donos do conflito. Deixei isso pra lá e fui de cá vivendo a minha vidinha. Fui fazendo o que tinha que fazer, estudei, trabalhei, fiz amigos, namorei muito, até que percebi que sempre acreditei no amor. Fui perceber isso bem tarde, lá pelos 27. Eu acho que até essa idade a gente ainda insiste em acreditar nos nossos pais e ao mesmo tempo temos vergonhinha de ser diferente. Acreditamos que eles detém uma verdade eterna, principalmente as nossas mães. Acreditamos que elas são seres mágicos e que por isso podem e sabem tudo. Como se o cavalo do príncipe fosse uma norma, um padrão.
Sempre fui das metas, das vontades, mas não dos sonhos. Ou pelo menos não com esse nome. Ou talvez, nunca admiti que as minhas metas eram na verdades sonhos imensos, os maiores. Talvez também somente por serem sonhos, tive um dia forças para lutar por eles. Nunca ousei chamar as minhas metas de sonhos porque o barato do sonho é sonhar e não conseguir. Sonho é diferente de meta. O tchan do sonho está mais na fruição do sonhar do que na coisa pela qual se sonha. Sonhar é delícia, é prazer. Na minha casa nunca foi muito permitido sonhar, nunca foi bonito sonhar. Se eu fiz, foi caladinha e escondida de mim mesma. Claro, devo ter sonhado muito, mas de verdade não me lembro. Me lembro de ter metas, sonhos disfarçados.
Pela avalanche de acontecimentos dos últimos tempos, não me permiti concretizar sonhos tardiamente sonhados. Final das contas, hoje eu entendi que eu queria muito muito muito muito ter tido um casamento ao algo do tipo no Brasil, com festa, amigos, banda e família tudo junto e misturado. Quando dei por mim que queria isso assim, de verdade, já era tarde demais. Outras coisas passaram na frente, inclusive a novidade, pra mim mesma, de querer isso. De um jeito ou de outro, não me casei com o cavalo do príncipe e continuo achando que meu casamento como foi tem mais a minha cara e de Moinul. Ah, e me casei com ele, o Moinul mesmo, e com todo o pacotinho dele. Ele não é um príncipe - a monarquia já acabou. Mas é a melhor pessoa que conheço, a mais íntegra, a mais leal, a ele e aos outros. No dia em que nos casamos, no papel,foi totalmente diferente do que a gente imaginava. Ops, na verdade não imaginamos nada - não deu tempo! E nesse dia, que passou como um foguete, tive muitas provas do que é real e bom e daquilo de que de fato temos que nos lembrar e levar em conta.


Vou me lembrar pra sempre que os pais do Moinul (que vivem separados há mais de 15 anos e têm até hoje uma relação complicada) vieram de Berlin de surpresa. Saíram de lá às 7 da manhã (o que significa sair de casa às 5 da manhã) e bateram na nossa porta às 8. Mamazinha (é assim que chamamos a mãe do Moinul) comprou no dia anterior um monte de flores e não sei como trouxe tudo no avião. A minha admiração por esse feito, que pode parecer pequeno mas não é, é assunto pra páginas e páginas, prefiro deixar pra depois. Quando chegaram, achei que fosse o correio. Não era, eram os dois, iguais a dois coleguinhas. Foi lindo.
Vou me lembrar sempre de Nívea, nossa tradutora, carioca mais que porreta, emocionadíssima, revivendo o casamento dela no mesmo lugar há 24 anos atrás. Ela se esquecia das palavras em alemão e pedia que a oficial repetisse de novo. Aí esquecia a palavra em português e lá do fundão gritava minha sogra: "paixão"! Foi lindo assistir a união da família Haque de novo. Depois das devidas assinaturas, na linda sala do Römer, fomos comer pão de queijo e tomar pingado, suco de maracujá, de carambola, na loja da Nívea. Mamazinha tava cansada, Moinul exausto. Baba precisava botar as perninhas pra cima. Eu tava elétrica e fui com Tia Ann e Robertinho comer fritas e bife. Na verdade eu tomei uma sopa. De tardezinha fomos pra Sachsenhausen, um bairro de Frankfurt, no Restaurante 360°, jantar com amigos brasileiros, recém feitos. Rafael, Andreas, Mário, Georg, Tati, Analu, Kai e Julia. Ganhamos tantos abraços apertados! Às 8 da noite Mamazinha e Baba voltam pra Berlin. Mamazinha jura que tá de pilequinho após uma única taça de vinho. O gerente do restaurante nos deu um espumante.




No outro dia foi uma quinta-feira. Dia normal, exceto por termos acordado um pouco mais tarde. Moinul foi trabalhar, eu fui pra escola. De noite andamos de bicicleta ou algo assim. Quer coisa melhor? Dia normal, vida normal, vida boa. À noite, estávamos meio cansados. Mas como todos os dias, esse terminou com a fala de Moinul (em português): "E então Lovinha, vamos dormir?"
Tem gente que adora rotina. Tem gente que odeia. Eu escrevo este post para dizer que mesmo ausente e imersa na minha curiosa rotina, ora caótica, ora espartana, não fico um só dia sem pensar e lembrar e relembrar de meus amigos queridos - para quem criei este blog.
É estranho. Eu queria contar tantas coisas e dividir, mas na hora de botar no papel parece que a energia não está lá aonde deveria estar e mesmo com tantas redes sociais, demanda um monte a comunicação com aqueles que amamos. Ao mesmo tempo, sinto uma enorme necessidade de ficar comigo mesma, quase que imersa em "condições ideais de temperatura e pressão". Isso vicia, mas não é por mal.
Desde cheguei em Frankfurt-Round-2, no início de Junho, o tempo voou. Meu cansaço é grande e tem dias que tenho a sensação que não fiz nada - "mas o que foi mesmo que eu fiz essa semana?" Há dias em que me acho um ninja, fico orgulhosa dos meus pequenos feitos e me sinto um pouco mais lúcida. Há momentos em que acho que toda a burocracia que enfrentei foi tão pouquinha e que foi mole, tomar doce de criança. Há dias em que tenho certeza que vou entregar os pontos. Agora porém, cheguei num ponto quase final. Uma hora isso tem que acabar! Pois é, estou quase lá.
Queria contar um pouco dessas peripércias. E nos entremeios ir lembrando de vocês, meus heróis.
Meu dia tem começado entre 6:30 e 9:00. O horário do meu despertar variou bastante nos primeiros dois meses. Só agora se estabilizou às 7:15 ou 7:30. E vocês sabem que não gosto de acordar tarde. 8:30 pra mim é quase a hora do almoço. Até porque há todo um protocolo a seguir de manhã, o que inclui ouvir trechos de duas novelas globais pela internet, tomar medicamentos, literalmente arrancar o Moinul da cama (esse se pudesse dormiria até as 10) e fazer o n.2. Está um super verão aqui, então agora não dá dó de sair da cama, o que também ajuda. Se começo às 9, provavelmente resultado de alguma peripércia do dia anterior (isso inclui uma caneca monster de cerveja, dormir muito tarde ou alguma comida punk), a coisa geralmente custa pra voltar pro lugar. Explico: gasto entre 2 e 3 horas por dia para fazer o meu dever-de-casa do curso de alemão. E isso sem estudar e fixar as palavras novas, que são muitas e são grandes. Se assim fosse, eu gastaria 4 horas numa boa. Nein, danke! Se acordo às 9 e gasto 40 minutos com meus protocolos matutinos (que agora incluem cremes para a pele), já são quase 10, somente 2 horas antes do meio-dia, quando eu tenho que preparar meu almoço, almoçar e talvez tomar banho para ir pra aula arrumadinha às 13:20. Há dias em que não dá tempo e como a escola é bem perto de casa, tudo bem. Débora vive me falando que eu tenho mais é que aproveitar, porque "quando a coisa ficar punk", não vou poder escolher acordar às 8:30... Sim, concordo com Milady, mas o ponto é que preciso da rotina. Da digamos "rotina ideal". Preciso dela porque me permite fazer as coisas do jeito que gosto e que me fazem sentir bem. Isso inclui uma manhã produtiva, com direito à banho gostoso antes da aula, almocinho leve, 2 garrafas de 750ml de água, expresso de manhã com um golinho de leite, vitamina porreta 30 minutos depois de acordar. Desse jeito, tenho energia para além do dever de casa, resolver pendengas burocráticas do everyday-life germânico, responder emails, ler e fazer coisas especialmente deliciosas de se fazer no verão daqui. Acho que Agosto tem sido fofo. Junho foi difícil. Eu, recém chegada do Brasil, uma avalanche de sentimentos e pensamentos sem mais pra onde. Julho foi puro recovering e Agosto... acho que Agosto tem sido fair.
Tem gente que fala que meu humor muda rápido demais. Sempre lembro disso. E claro, me lembro porque vejo o danado mudando mesmo. Não só ele, mas a autoestima, a confiança em si, a referência. O caos vem "facinho, facinho", basta uma palavra, um gesto. Tenho segurado as pontas. E claro, a presença de Debinha me ajudou muito. Cuidamos da auto-estima, fizemos compras de cremes e maquiagem. Uso tudo todos os dias - um avanço.
Os assuntos burocráticos estão quase no fim. Balanço parcial: uma certidão de casamento alemã e uma internacional, uma permissão de residência, uma de trabalho, três projetos de doutorado escritos e enviados, declaração fiscal. Ainda em andamento: certidão de casamento brasileira, seguro de saúde, procuração para venda do meu carro. Pendentes: passaporte novo. Prefiro não comentar quanto (€) tudo isso tudo custa, mas faço questão de acrescentar que isso significa em média três idas a cada órgão burocrático correspondente. Procurei fofinha usar essas oportunidades para treinar a língua. Quando conseguia, me sentia a tal e até fazia piada com o funcionário. E claro, você não tem que falar tudo certo, mas se tenta, se se esforça em falar, pessoinha te trata melhor, percebe que você está fazendo a sua parte. Típico.
Minha sempre companheira é minha bike, recém carinhosamente reformada por Moinul. Como sou preguiçosa pra fazer esportes, procuro pelo menos duas vezes por semana ir pro centro da cidade de bike. Se tenho algo a resolver por lá - e sempre tenho, é ela quem vai me levar. Gasto 40 minutos pra ir e 40 pra voltar. E claro, se fico cansada na volta, pego o trem e levo a bike junto. Ns trens urbanos e metrôs na Alemanha você vê de tudo: de gaiola de passarinho a bicicletas grandes e dobráveis, carinhos de bebês trigêmeos, noivas fazendo campanha pro casamento. Meus preferidos são os velhos - aqui eles andam de trem pra lá e pra cá, vão à Ópera e enchem a cara de vinho de maçã. Super paqueram nos mercados de rua, têm turma. No Kleinmarkt todas as quartas feiras, há uma espécie de feira de vinhos - a região do Reno é famosa por isso. O pessoal super bebe, fuma e conversa. Dá pra ver o fumacê de longe. As senhorinhas super maquiadas e bem arrumadas. Já fui umas duas ou três vezes e fiz uma amizade. É tipo o "Opção" em BH. A mesma coisa e as mesmas pessoas todos os dias. E é ótimo.
Ando muito de bike pelo meu bairro. Atrás da nossa casa tem um parque. Tem rio, banquinho e mesa de pique-nique. Patos e castores. Vi um castor nadando. Tive que confirmar na Wikipedia se era um castor mesmo. Um pato veio pro meu lado um dia. Putz, fiquei com medo, afinal meu Health Insurance ainda está em andamento...! Não posso levar uma bicada sequer.