Percorrendo o caminho usual dos estrangeiros na terra nova, me matriculei num curso de alemão. Hoje faz uma semana que as aulas começaram. Meu curso é uma espécie de intensivão, com aulas diárias de três horas e meia de duração. Meu curso fica no meu bairro e assim, pude economizar o dinheiro do ticket mensal de transporte, amei. Dei muita sorte, depois de ter dado um azar danado. Geralmente, quem chega aqui vai logo pra Volkhochschule, uma escola para adultos, onde há aulas de dança, business english, culinária, tudo o que quiser, hindi, chinês, português. Lá é o INPS das escolas de idiomas e afins. Filas gigantes e gente do mundo inteiro, sem saber falar nem uma palavra, muitos expatriados e exilados que precisam fazer a tal da "integração". Um mistério esse país abrir as pernas pra tantos estrangeiros. Está certo que sem os turcos, os alemães não comem, não lavam o carro e nem vão ao supermercado, mas isso é pouco. A coisa não é por aí. Há algo que ainda não consegui entender de verdade. Enfim, o fato é que eu fiquei uma tarde inteira na Volkhochschule pra no final, aos 47 do segundo tempo, saber que não havia mais vagas. Lá é meio longe e voltei adordoada, já que em apenas uma tarde, você é registrado e passa por uma espécie de triagem, que inclui uma prova com 80 questões de múltipla escolha e cinco de escrever, além da matrícula/entrevista final. Tudo-ao-mesmo tempo-agora. Esse dia foi o dia da chamada quase-sorte ou, ao contrário, do quase-azar. Voltando de lá, vi que tinha perdido a cópia do meu passaporte. Eu aproveitei para tirar um xerox do original e, de tão lerda, quase esqueci-o dentro da máquina. Depois de 80 questões, eu mal sabia descobrir o caminho pra casa, quanto pior manusear uma máquina de cópias automática. Um moço bonzinho me salvou: "hey, você não esqueceu seu passaporte aí dentro?". Respondi: "my angel". Aí, voltei pra casa borocoxô, mas com uma esperança desesperançada da coisa se resolver no dia seguinte. Foi quando fui parar na Lehrerkooperative (Cooperativa de Professores), no coração de Frankfurt. Sem vagas. Aí fui na Berlitz - uma fortuna. Passei na biboca brasileira pra tomar um pingado e foi lá que fiquei sabendo do Zentrum, minha escola, bem aqui no meu bairro, atrás da estação de trem. Na volta pra casa, fui até lá e enfim, uma lindeza. Talvez pela peleja de arranjar o curso, amo a escola. Além do mais, vou de bicicleta e faço comprinhas na volta, vou aos correios, esperando a primavera que nunca chega. Ou chegou e sou eu que não entendi que é assim mesmo.
De novo, confirmo: adoro escola, colegas e professor, intervalo, merenda e dever de casa. Minha escola tem até uma máquina de café, que tem um ótimo chocolate quente por uma pechincha: 50 centavos. Tenho dois professores. Funciona assim: a primeira metade da tarde é com um professor e a segunda metade é com o outro. Eu odeio o primeiro, um velhinho chamado John que nunca troca de roupa - incluo calça, blusa, suéter e meias, e tem voz de locutor. Ele fala rápido demais e acho que no fundo debocha da gente. Pra mim, ele tem verdadeiro prazer em pronunciar o nome das chinocas errado. Ele nunca abre uma discussão, não dá tempo pra processar. Longe de mim querer disputar com a língua dele, mas tem coisas que precisam ser questionadas para serem entendidas. Com ele, é o que é - ganhou a minha antipatia. Meus colegas também não gostam dele: "the Gestapo guy". Os colegas são umas peças. Tenho inclusive que tomar cuidado para não me distrair com suas roupas, unhas, cabelos e jeitos, estojos, cadernos, jeitos de anotar e esquecer da aula. Ninguém é punk ou tatuado. Todo mundo muito normal e de tão tipicamente normais aos seus lugares de origem, me apresentam assim tão cheios de mistérios e me interessam tanto.
Eu fiz questão de decorar os nomes, pois são emblemáticos! A turma é grande e, por isso, trabalhamos muito em duplas. Minha dupla é sempre Xao, uma chinoca muito porreta, extremamente eficiente, inteligente e rápida. Ela me ensina muito e tem um super dicionário chinês-alemão-inglês no ipod. Além de Xao, há outra chinoca, a Liu, que não fala coisa nenhuma de nada, coitada. Foi um custo pra perguntar pra ela onde ela corta o cabelo. E pior ainda pra entender. Quem sofre é o partner dela, Josí, um español (olééé!) do país basco meio classe trabalhadora - bem mulheres, tirem suas próprias conclusões. Além desses, tem minha super chegada Senka, um mulherão da Croácia, que estuda filosofia e vem pra aula super maquiada com sombras mil e tem raiz preta no cabelo de uns 5 cm. A mulher é um foguete, fala italiano lindamente... Ela é a melhor da classe, apesar do sotaque balcânico carregado. Ela sempre faz dupla com Enrico, o venezuelano que fala alemão com sotaque espanhol terrível - esse só posso imitar ao vivo. Enrico tem nome de novela mexicana, tipo Enrico Miguel, ou algo do tipo, e apesar de sotaquento é muito inteligente. Tipo da minha idade, engenheiro mecânico. Além desses, tem o Vijay, do Nepal; o Usama da Tunísia; uns três japas mega eletro-equipados que acabaram de chegar; uma camaronense super inteligente chamada Christie <3; uma dupla de jovenzinhos que querem curtir a vida - Yenes e David, da Holanda e da Eslováquia, respectivamente. E, finalmente, o cara da palestina, Mohamad e o americano ex-soldado no Iraque, Aaron. Só pra constar, porque também tive dúvidas, Palestina não é Israel - se eu falar isso o menino não vai gostar! Palestinos são os árabes - lembram do Yasser Arafat? Então, ele é de Hebron, menor que Divinópolis, capital da Cisjordânia. Não preciso explicar que o Mohamad começou devagar mas é um gentleman e usa camisas sob o suéter magrelinho. Calado, sóbrio, na dele e muito esforçado. Veio pra Alemanha pra estudar Medicina. O americano só sabe falar que gosta de country music e baseball - desculpem gente, não desceu. Ele insiste em falar Derrrrrrr, Wirrrrrr. Ahhh, que pôxa! Se Xao, uma chinoca com problemas de dicção dá o melhor de si para falar direito, faça-me o favor!
O segundo professor é o príncipe encantado da turma. O cara nasceu pra ser professor. Tão delicado... ele faz a aula no nosso compasso - e assim, rende tanto! Passa num minuto. Ele é esperto, extremamente observador e perpicaz, além de poliglota. Quando não tem como entender uma coisa nem em inglês, ele simplesmente sabe a palavra na língua de quem estiver ali. Um mistério. Visualizo ele com duas filhas e uma imensa biblioteca. Ele é magrelo de doer e tem um sofrimento nos olhos. Sua nacionalidade é indecifrável.
Fico pensando quem são essas pessoas, quem são os seus amigos e seus pais, se têm irmãos. As chinocas provavelmente não. De quê elas tem medo? Fico imaginando quanto dinheiro tem na sua conta bancária ou que tipo de música ouvem. Se estão tristes ou felizes. Se tomaram banho antes de vir pra aula. Se sentem falta do seu país ou se é um alívio estar aqui. A escola é território neutro, um dos poucos dos quais eu já pude experimentar. Não interessa o que você é ou deixou de ser, se é bonito ou feio, rico ou pobre. Nessa horas vale o que você é no presente, naquele segundo ou nos cinco minutos da tarefa em dupla. E pra isso, precisa de pouco. Estou me contentando com esse pouco e não sei se isso é bom ou ruim. Observo muito o jeito de meus colegas se portarem. A humildade e o respeito de Mohamad com a aula e os colegas e o jeito debochado de Aaron... o que me irrita profundamente. A delicadeza de Usama e o francês de Christie posso ouvir pra sempre. Essa é outra que sempre confronta o professor chato. As chinocas são uns chaveirinhos, principalmente Xao, que sempre é minha partner. Ela tem a minha idade e era professora de inglês em Xangai. O melhor de tudo foi, mesmo sem saber miudezas sobre cada um, descobrir que vários deles, senão a maioria, vieram para a Alemanha por causa de seus amores, suas mulheres e maridos. Até com o Aaron foi assim. É, minha gente, será que no final das contas o amor é o que move o mundo?
Que sensação maravilhosa a convivência com esse povo todo!! AMO ISSO!!
ReplyDeleteMeu post preferido até agora!
Bota aí foto dessa gente!
Bjs!
Raquel (c)
Quel, eu fico tímida em tirar fotos, mas vou tentar. Aconteceu uma coisa bacana. Ganhei ovinhos de páscoa da vizinha da minha sogra, em Berlin. Trouxe pra casa, mas resolvi que não ia comer aquilo tudo. Pensei: vou levar pros coleguinhas. Eles adoraram. No outro dia, alguns colegas levaram presentes. Um levou bombons, outro levou um brinquedo, outro levou uma bala. Quero curtir esse momento bolinhas rosas num fundo azul.
DeleteOi Pris!! Estava viajando e fiquei um tempo sem ler suas coisinhas...
ReplyDeleteDá quase para ouvir sua voz quando agente lê..rs... seu jeitinho está em tudo!!
Bom saber que seus olhos estão voltados para o que realmente importa na vida...
Olhar para as pessoas sem fantasias, sem esconderijos, somente com o que elas tem no coração para oferecer naquele momento é um dom especial que você tem e que não é comum nas pessoas.
Quanto ao seu professor chato... que dó (dele né)... Estou lendo um livro que se chama "A arte de ser leve". O cápitulo que li hoje no metrô se chama "Bom Humor". A primeira frase me parece ser feito para ele. Então aí vai:
"É impolido dar-se ares de importância. É ridículo levar-se a sério. Não ter humor é não ter humildade, é não ter lucidez, é não ter leveza, é ser demasiado cheio de si, é estar demasiado enganado acerca de si." (André Comte-Sponville, filósofo francês).
bjs.. saudades.. (dona Pata).
Carol, amei essa passagem - a do "bom humor". Vamos emoldurar e mandar de presente?
Deletelove, queria ter escrito o que a(o) "anonymous" escreveu acima... disse tudo.
ReplyDeleteé impressionante como, cada um à sua maneira, eu e vc, reagimos da mesma maneira nesse momento de descobrimentos..... luving you
McKey, o anônimo acima é a Carol! Carol, quero ler esse livro (é da jornalista Leila Ferreira né?), porque ôxi minha nêga, como ser leve custa um tanto... Pesquisei sobre esse filósofo na amiga wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/Andr%C3%A9_Comte-Sponville. Pena que os livros estão em francês, me parecem curiosos. Enfim gente, a arte de ser leve pode ser um bom post!
ReplyDeleteFalando da aula de novo, é como se fosse uma cápsula. E, sem saber, aposto que todos a esperam ansiosamente, pois é ali que cada um é cada um mesmo. A hora da aula é a hora de mergulhar num mundo onde todos são iguais e onde o problema mais grave a ser resolvido é a declinação. Talvez isso sirva pra gente aprender que na verdade deveríamos nos preocupar somente com problemas desse tipo. Ou seja, a cápsula é que deveria ser o real. Isso é uma prova de que o mundo "real" está mesmo corrompido?
Assim como me chamam Patrízzzia, também errei os nomes! Corrigindo: Xiao e não Xao, Lin e não Liu, Martín Henrique e não Enrico Miguel e, por fim, Mohanat e não Mohamad. Sorry dears!
ReplyDeleteCarrie, e se não for o amor, o que será meu Deus?
ReplyDeleteSó o amor!
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