October 02, 2012

Matemática


Todo mundo diz que alemão é uma língua danada. As pessoas falam comigo com penina. Olham e dizem: “nó! Mas alemão... é difícil demais né não?...”. A expressão de tristeza e desânimo é engraçada, muito parecida com a que as pessoas fazem quando o amigo conta que vai reformar a casa: “nó! Reforma é duro né? Mexer com pedreiro então....”. Ah, e também tem o famoso “ai, credo!”, curtinho, repentino, mais comum entre mulheres. Acho isso tudo muito engraçado porque as pessoas falam essas coisas automaticamente e como diz Michelle, operam por palavra-chave: “alemão -> difícil, phoda, muitas consoantes”, assim como também tem o “alemão -> salsicha”, ou o “alemão -> cerveja”. Generalizações. Faço também. 

Acho curioso porque a maioria das pessoas não têm a mínima noção do que é aprender uma outra língua. Não aprender por aprender, aprender porque está na quinta série ou porque todo mundo faz. Diferentemente do inglês, raramente alguém aprende alemão porque sim, porque o coleguinha faz e eu quero fazer também. Nenhum dos meus colegas da escola de alemão está lá pra passar o tempo ou porque é legal. Mas porque precisa ir ao banco, porque bateu com a bicicleta e precisa se explicar pra polícia, porque precisa comprar bicarbonato na farmácia e o namorado viajou. Nessas situações, os acertos e erros tomam uma outra escala. Parecem astronômicos quando são pequenos e imperceptíveis quando na verdade são enormes. Nunca se comunicar teve peso de ouro. Cada caso é um caso, mas eu queria contar o meu. 

Preciso dizer que quando penso na língua alemã - no que aprendi, no que não aprendi, no que desisti de entender e no que já consegui - lembro-me primeiro, assim antes de tudo mesmo, da Tia Ana, minha professora de português do colégio a partir da 5a. série. Não tem um só dia que não me lembro dessa criatura. Foi ela quem me ensinou Análise Sintática. Bendita Tia Ana. Tia Ana, sem a sua Análise Sintática eu ainda estaria no A1-1 do alemão! Somente graças ao meu bom português dou conta do alemão.

Eu preciso dizer também que só agora entendi a importância do português. É sério. Aí vocês vão falar: “ah, mas né, o português é básico né, todo mundo tem que saber ler e escrever”. Estou falando de mais do que isso. Eu sinto que só estou aprendendo alemão direito (bom, pelo menos eu acho que estou) por causa das minhas referências do português. Eu sei o que é sujeito, predicado, objeto. Sei como essas coisas funcionam - Análise Sintática. Em alemão a pessoa precisa entender isso pra poder montar as frases. Cada coisa tem uma posição definida e os artigos definidos e indefinidos declinam de acordo com o sentido da frase. Além disso, claro, a língua funciona como o povo funciona. Ou o contrário... Se as coisas não acontecerem como está previsto, elas não vão funcionar. E se elas não funcionarem agora, não funcionarão amanhã. No Brasil é diferente. Se sempre resta uma esperança. Não funcionou hoje, mas pode funcionar amanhã. Bem, fato é que se eu errar a declinação do artigo, o sentido da frase muda. No português não. No português você pode muita coisa. Imaginem, usamos a terceira pessoa do singular (você) no sentido da segunda (tu), mas utilizando a conjugação da terceira. Em português posso botar o verbo onde eu quiser ou pelo menos onde ficar mais bonito. Em alemão ele estará sempre no segundo lugar. Há claro exceções, onde ele vai pro final, as danadas das orações subordinadas. Elas já foram um grande problema pra mim, agora não mais. Olha isso... Alemão faz você perder a referência. Depois de um tempo, passa achar o seu grande problema do passado, como as orações subordinadas, papinha de criança. Sempre aparece coisa pior e você deixa o seu último grande problema pra trás. Se acostuma com ele, aceita e a coisa acaba funcionando. 

Dificilmente existe “porque sim”. Existe sim um grande “porque sim” no início, que é definidor. Mas daí em diante são derivações. No início você acha tudo muito muito muito difícil. Não se vê falando nada, não enxerga um futuro, assim real. A pronúncia é bem difícil a ponto de você se esquecer de como se fala uma palavra em menos de um minuto depois de pronunciá-la. Ainda mais eu, uma ansiosa incurável. Quero me lembrar, quero me lembrar, quero me lembrar e esqueço. A pessoa aprende que existem 3 tipos de artigos definidos, além do plural: masculino, feminino e o neutro. Fica sabendo que não há nenhuma lógica que se assemelhe com a da sua própria língua na designação dos artigos. Esse é o primeiro momento de desespero. Por exemplo: colher em alemão é masculino, garfo é feminino e faca é neutro. Você até já ouviu falar que existe um troço chamado “casos”, que eles vem do latim e tal, mas nesse momento nem dá importância. Em primeiro lugar porque se você der, desiste. Então, prefere a ignorância que te permite seguir em frente. Em segundo lugar, porque sua cabecinha está ocupada demais em decorar o que é masculino, feminino e neutro. O grande problema da humanidade agora é esse e mais nenhum. Seu cérebro te apronta traquinagens e você erra tudo. Espalha etiquetas pela casa e descobre que a memória visual é arma fundamental. Descobre que esses artigos servem somente para o “Nominativo” e que depois tudo vai mudar. 

Você finalmente percebe que os alemães falam de boca fechada e que por isso é tão difícil entender o que eles fazem com a língua. Há muitos sons que vem da garganta ou do final da língua, um mundo a ser descoberto. Peça ao seu professor / marido / sogra / caixa de supermercado pra repetir com a boca aberta, e devagar. Mico, mas é assim que funciona. Tem horas que até me abaixo pra ver como a pessoa fala e olho direto pra boca dela. Presto muita atenção. Não sou boa de ouvido, nem no Português... esse tem sido o meu principal problema. 

No início a gente aprende os números! Te ensinam a falar as horas! Lá vem de novo outra lógica. Não são “vinte e dois”, mas “dois e vinte”. Não são “três e meia”, mas “meia quatro”. 999, além de ser “nove centos nove e noventa” se escreve tudo junto: “neunhundertneuundneunzig”. Você pode escolher dizer 6:25 assim: “cinco para meia sete”. A partir daí, você relaxa e pensa: “é, vou levando porque não tem muito jeito não”.  A melhor parte é quando você se desespera total, porque mais pra baixo você não pode ir, então sabe que daí vai subir. Você aprende a diferença entre Nominativo, Acusativo e vê que todos os artigos mudam. Isso não é difícil de entender, mas difícil de praticar. Iniciantes precisam de uns 5 minutos pra formular uma frase corretamente. Seus amigos já familiarizados com a língua e seus professores te dizem que essa é uma fase difícil, mas que de repente o seu cérebro dá um clique e a nuvem negra passa. Te asseguram isso e você confia. E passa mesmo. Depois de alguns meses é que eu entendi essa lógica. Há várias fases de crise com a língua e a tendência é encarar cada uma delas achando que é o problema da humanidade. Desse jeito você (1) engata a primeira e sobe o morro a qualquer custo e (2) mente pra si mesmo - ignora as partes da gramática que você ainda nem sonhou em aprender e se concentra no problema atual. Isso acontece toda hora. E quando você tá lá todo afiadinho num determinado assunto aparece outro pra atrapalhar seu meio-de-campo. Você sobe e desce, termina um ciclo de grandes dificuldades e depois começa outro todo de novo. 

Depois de um período inicial a gente fica mais esperto. Já não se abala com qualquer pedra no caminho. Se acostuma. Até porque se sente o máximo em ter entendido o Acusativo e também o Dativo. Não sei explicar assim rapidamente o que são casos, mas é algo próximo daquela história do Objeto Direto, que é Objeto Acusativo no alemão, e Indireto, que é o Objeto Dativo do alemão. Acusativo e Dativo também tem a ver com lugar e movimento, e obviamente com as preposições. Há preposições só pro Acusativo e outras só pro Dativo. Tudo é decorado e tabelado. Repito: alemão é fácil de enteder, mas custoso de praticar. Tenho senhas ridículas pras preposições, tipo VZ SNAMBAG. Cada letra é a inicial de uma preposição do Dativo. E FUDOGE é a senha para as preposições do Acusativo. Parece nome de cachorro, mas não é. Além disso, tudo que implica movimento é Acusativo e tudo que é fixo é Dativo. “Vou para a escola” indica um movimento e em alemão é “Ich gehe in die Schule”. Nesse caso usamos “die”, artigo feminino singular do Acusativo. Se eu quiser falar “eu estou na escola”, a coisa já muda e vira coisa fixa: “Ich bin in der Schule”. O die vira der, que significa a mesma coisa, mas só que no Dativo. Sendo que der no Nominativo é masculino e no Genitivo é plural ou feminino. 

Quando você pensa que entendeu tudo tudo e tá arrasando nos artigos e até já aprendeu outro caso, esse tal Genitivo, primo do Genitive Case do inglês, que não é difícil, vem a bomba: os adjetivos também declinam e não declinam igual aos artigos. Por exemplo:

A menina bonita vai à escola.
Das schöne Mädchen geht in die Schule. 

Uma menina bonita vai à escola.
Eine schönes Mädchen geht in die Schule. 

Dei um presente à menina bonita.
Ich habe dem schönen Mädchen eine Geschenke gegeben. 

Vi uma menina bonita ontem.
Ich sah ein schönes Mädchen gestern.

Schön quer dizer bonito, bonita. E pode declinar em schön, schöne, schönen, schönes, schöner. Depende de um tanto de coisa. Parece igual, só que não. Mais tabelas e mais 7 minutos pra calcular como se pergunta quem pegou a caneta. Ou seja, você fica calado. Só não vale transformar isso em bloqueio. Uma coisa é ter preguiça de entrar numa conversa e ver as caras dos caras te esperando como se você fosse gago - e nessas horas você é. Melhor dar um prazo pra preguiça ir embora. Já outra coisa é ficar com vergonha disso, aí já não pode. E claro, nada melhor do que duas cervejas pra danar a falar. Isso foi até tema de um texto da escola: cerveja ajuda!

Tenho dois problemas atualmente - não consigo administrar os tempos verbais, principalmente no passivo. Passivo é o ó. Ainda mais que há mais de uma maneira de dizer a mesma coisa (pelo menos é a mesma coisa pra mim) e fico tentando entender porque de fato há dois motivos. Tentar entender demais não é bom. Konjuntive também tem sido a pedra no meu sapato. Konjuntive é “se eu tivesse ido, ele teria feito”... Bom é saber que isso em Português também é osso. E em Português as palavras ainda tem acento. Coisa boa, bem feito! - penso eu, me vinguei. Mas enfim, nessas horas sempre lembro que se eu aprendi a declinar os artigos e os adjetivos e hoje nem me preocupo mais com isso, é bem possível que num futuro não muito distante eu compreenda esses tempos verbais. Uma hora vai ter que acontecer. 

E por último, quando eu achava que meu problema eram esses tempos verbais que aprendi agorinha, ou não aprendi agorinha, me aparece o bendito Discurso Indireto, que é a coisa mais revoltante, idiota e pedante. Antipatia. O discurso indireto não faz sentido, não entra na minha cabeça e depois de quatro meses seguidos de aulas diárias, me dou ao direito de recusar. Discurso indireto não quero, não vou, sobreviverei sem. Pelo menos por enquanto. Greve, motim, revolução. Pra mim, uma ex-CDF, é um avanço. 

A escola é legal, já falei isso. Mas estou chegando no limite da motivação. Já vi a gramática quase toda e com o que me ensinaram dá pra se arranjar muito bem. Já com o que eu aprendi nem tanto. Meu maior problema hoje nem são os tempos do Konjuntivo nem a voz passiva do bendito, mas o vocabulário. Se eu soubesse mais vocabulário, tudo seria mais fácil. Erro de gramática se resolve, as pessoas te entendem mesmo assim, mas sem vocabulário ninguém vai te entender. Mímica não é linguagem de sinais. Tem limite e muito engano. 

Pelo menos estou igual a todo mundo: sem aquela motivação inicial e desesperada por um HD externo pra armazenar palavras novas e seus fenômenos correlatos. Do tipo: “ankommen, bekommen, kommen” são verbos diferentes. Assim como “verlassen” e “verpassen”, “gesicht”, “gericht” e “geschichte”, “kühe” e “kühl”. Meus favoritos são “scheinen”, “schneien”, “schneiden” e “schneinen”. O sol brilha: die Sonne scheint. E a neve não brilha, die Schnee (a neve) schneit, a neve neva. Mesmo tema, mas diferentes temperaturas... 

Tem horas que dá até vontade de aprender linguística. Se não fosse a vida real, seria lindo ficar o dia todo pelejando com os significados e etmologias. “Zufrieden”, por exemplo, é uma palavra que adoro. Significa “satisfeito” e é formada pela preposição “zu” e pelo substantivo “frieden”. “Zu” é como se fosse “para”, “em direção a”. Meio que indica um movimento em direção a alguma coisa. E “frieden” quer dizer “paz”. Quando alguém está satisfeito, está indo em direção à paz. Fala sério... isso é lindo.

1 comment:

  1. Adorei:

    "E em Português as palavras ainda tem acento. Coisa boa, bem feito! - penso eu, me vinguei."

    Ri d++
    bjs

    Dona Pata

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